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quinta-feira, maio 03, 2012


Pronunciamento na Audiência Pública pela declaração de utilidade pública do Cine Belas Artes – Assembleia Legislativa de SP – 25 de abril de 2012

Nobres deputados, representantes.
Nobres cidadãos, representados.

Começo com uma citação:
Dante (Ancona Lopez- um dos sócios fundadores do Belas Artes) foi nosso melhor exibidor. Sem seu exemplo São Paulo não se teria tornado uma capital do cinema, uma Cinecittà”.
Augusto Calil – Secretário Municipal de Cultura

Meu nome é Afonso Jr. Lima, historiador, Mestre em filosofia pela PUC, escritor.
Sou gaúcho e moro em SP desde 2007, quando me tornei sócio do Cineclube Belas Artes, assistindo dezenas de clássicos praticamente de graça.
Hoje eu falo em nome de uma população inteira.
A cultura nos ajuda a criar uma sociedade mais tolerante, uma consciência coletiva e a recriar o mundo, através da imaginação. Sem cultura – a nossa tradição local e a herança universal - nós nos desumanizamos.
Poucas vezes se viu um tema com uma unanimidade semelhante: todas as classes sociais, todas as idades.
Se estamos aqui hoje é porque a cidade foi abandonada por seus representantes à nível municipal, porque a vontade da população foi ignorada.

Alguns números:

  • 90 mil apoiadores na página do Facebook criada pelo estudante de direito Thiago Albejante em janeiro de 2011, antes do fechamento.
  • 16 mil assinaturas somente no abaixo-assinado virtual criado pela jornalista Caroline Santos. Há muitos outros.
  • Uma floricultura pediu aos clientes que escrevessem uma mensagem ao Belas Artes. Mais de 450 depoimentos – inclusive de celebridades - foram então pendurados em uma àrvore, na entrada do cinema, e rosas colocadas no mezanino do prédio.
  • O Movimento colocou uma banquinha no Conjunto Nacional recentemente: colhemos em média 800 assinaturas por dia do fim de semana; quase 7 mil assinaturas em sete dias.
  • Esse fechamento foi eleito o maior erro do ano pela enquete da Folha, com quase 4 mil votos.
  • 1.800 pessoas frequentavam o BA em cada dia do fim de semana e dias de promoção. Inúmeros festivais, cursos e palestras se realizaram alí.


Apresentarei agora exemplos do poder público investindo no cidadão e defendendo a identidade cultural.

O jornal Valor Econômico de 20 de maio de 2011 noticiou:
O número de livrarias no Quartier Latin passou de 225 para 124 na última década. (...)
Para estancar esse esvaziamento e evitar a descaracterização do bairro, a prefeitura de Paris decidiu incentivar a abertura de livrarias. O método utilizado é simples: apoio financeiro aos comerciantes, com aluguéis abaixo dos níveis de mercado. 


Na Argentina, atualmente, o cinema mais importante da Aamérica Latina, tendo inclusive ganho um OSCAR, sabe-se que:
Desde os anos 1990, o Instituto de Cinema Argentino (ICAA) investia em algumas salas urbanas para criar um espaço dedicado exclusivamente ao cinema argentino. Mas, em 2003, optou-se por expandir essa prática: além da Sala Tito Merello, o Instituto alugou o Cine Gaumont e o Teatro de La Comedia.
A ideia por trás desses cinemas era a de livrar-se dos caprichos dos exibidores, que, em geral, consideram os filmes nacionais mais arriscados e menos lucrativos que os de Hollywood. Desde 2004, há uma iniciativa para abrir esses cinemas públicos em escala internacional. Em abril de 2004, um foi aberto em Madri, em seguida, foram abertos similares em Roma, Paris e Nova York.



Em 2005, José Serra- então prefeito da cidade de São Paulo, desapropirou um edifício abandonado, no número 210 da Praça Roosevelt ao lado do teatro Espaço dos Satyros 1, a atual SP Escola de Teatro.

A casa da família Buarque de Hollanda, na rua Buri, 35, no bairro do Pacaembu, foi desapropriada e tombada como patrimônio público pela Prefeitura em 2002.



O Rio tem projeto para salvar cinemas de rua. Noticia o site BOL de 9 de outubro de 2011:

Em pouco mais de um ano e meio, seis tradicionais cinemas de rua terão voltado a funcionar no Rio e em Niterói.

O governo do Rio quer reativar o cine Olaria, transformando-o em 2012 em centro cultural, assim como a prefeitura fará com o ex-cine Imperator, no Meier.

"Ali há uma relação artística e mais ampla com o cinema do que nas salas do shopping. (…)
Fazem parte da identidade cultural e memória afetiva da cidade",
diz Professor de cinema da PUC-Rio Hernani Heffner.

Diz a Constituição, no seu artigo 21, sobre o direito à propriedade privada:



 1. Toda pessoa tem direito ao uso e gozo dos seus bens. A lei pode subordinar esse uso ao interesse social.

A urbanista, professora da FAU, Raquel Rolnik, comenta:

"Estes cinemas (de rua) fazem parte do ethos cultural das cidades e bairros, são pontos de encontro, rituais de escape, divertimento, sonho e reflexão que extravasam das salas para as calçadas ao redor. Lutar pela permanência destas salas, portanto, deveria ser objeto de políticas urbanas e culturais das cidades, estados e do governo federal”.

O cinema, assim como a escrita, é uma linguagem que garante acesso à experiências enriquecedoras insubstituíveis. Isso porque acessamos outras consciências, outras lógicas, e despertamos nossas reflexões emocionais.
Atualmente os dois ou três cinemas de arte de São Paulo – como o Unibanco Augusta e o Reserva Cultural (com ingressos entre R$17,00 e R$ 24,00) não dão conta da demanda de filmes e estes ficam pouquíssimo tempo em cartaz ou não são exibidos. O Cine Sesc oferece apenas uma sala de cinema.
Regredimos.

Preço de ingresso de cinema em São Paulo é um dos mais caros do mundo em torno de R$ 25 reais.


O cineasta Nelson Pereira dos Santos afirma:

O problema é que o cinema saiu da rua foi para o shopping center, para pessoas que podem ir a esses locais”.
Ele credita ao fato o afastamento da população mais simples das salas de cinema.

No Belas Artes, o Cineclube cobrava apenas R$ 60 ao ano.
Era um projeto com sessões diárias sempre às 19h, sempre com quatro filmes ao mês (um por semana), integrando ciclos temáticos, como homenagens a grandes diretores, atores ou atrizes, por vezes realizando debates na sessão de encerramento.

Havia cinco salas – as lendárias MARIO DE ANDRADE, CARMEN MIRANDA, VILLA LOBOS, ALEIJADINHO e OSCAR NIEMEYER.

Tinha meia entrada acessível à aposentados e estudantes. No site antigo temos os valores do ingresso em março de 2011.

Às segundas-feiras, qualquer pessoa que apresentar carteira de trabalho (mesmo estando desempregado),
ou cartão de aposentado paga R$ 5,00.Quartas-feiras:O valor do ingresso é de R$ 10,00.
Com a apresentação da carteirinha de estudante, será cobrada meia-entrada.
Nos demais dias (terças, quintas, sextas, sábados e domingos)o valor do ingresso é de R$ 18,00.
Com a apresentação da carteirinha de estudante, será cobrada meia-entrada (R$ 9,00).

Além disso, o acesso fácil o diferencia da Cinemateca e MIS – na prática frequentados pelo público que possui carro.
Além de que – e talvez principalmente - o Belas Artes faz parte do charme da Avenida Paulista.
Há que se levar em conta também o impacto de valorização da nova estação Paulista do metrô contruído pelo governo estadual (o que o Estatuto da Cidade obriga avaliar).

Uma das nossas maiores preocupações é com o que eu chamo de "periferização do centro", quando a elite vai para condomínios fechados fora da cidade e os equipamentos culturais (assim como bares, restaurantes, etc.) quebram por causa da supervalorização. É o estilo de vida "prisioneiros do concreto" onde cada um fica na sua casa, sem trocas e sem diversidade. Uma cidade de “guetos”, a era do bloqueio comunicativo, sem comunicação significativa.

Propomos então a declaração de utilidade pública e criação de um Centro Cultural Belas Artes, com salas de exibição para filmes brasileiros, de arte, documentários, animação e curtas-metragens.
Que tenha uma Livraria (a lendária livraria Belas Artes funcionou por 15 anos), um café, como centro de convivência, sala de exposições, auditório para debates e cursos, como previa o projeto original de 1967 dos empresários Florentino Llorente e Dante Ancona-López (de quem Leon Cakoff, criador da Mostra Internacional de São Paulo foi assistente no BA)

Florentino Llorente diz à Folha de São Paulo em 09/04/1967:
“Mais do que um cinema será um centro de cultura inteiramente aberto ao debate, oferecendo, para isso, tudo o que a inquietação intelectual de nossos dias está exigindo”.
Por fim um investimento desse porte não se trata de doação, já que o mercado da cultura em São Paulo movimenta 40 bilhões de reais ao ano. Investir na Economia criativa, além de criar uma sociedade saudável, é lucrativo. As futuras gerações nos agradecerão.

Afonso Lima 

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