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segunda-feira, julho 23, 2012


A sedutora

Amigo, temo que sua esposa, a boa Ida, esteja ocupando demais seu tempo e contar-lhe-hei meus avanços, saudoso de nossa antiga correspondência. Quantas vezes ouvimos melodramáticos casos de adultério, de segredos familiares e de desejos reprimidos? Vingança, revolta contra os pais, fantasmas que retornam, toda a onda dos teatros da fatalidade com cenários de papel crepom! Um homem contou-me que seu padrasto abusava dele no banho, ejaculava em sua boca, e que, quando contou à sua mãe, levou uma surra por ser “mentiroso”.

Sempre pensei que, no caso da mulher, a natureza é destino, pois lhe dá a bondade, o encanto e a beleza, as qualidades delicadas e a necessidade de proteção. A luta pela vida não combina com esse anjo doce e delicado, e, quando as misérias se abatem sobre ele, ainda mais na idade em que as flores desabrocham, sua alma de camélia adoece e murcha. Assim, recebi essa garota de dezoito anos em meu consultório, com, entre outros sintomas, tendências suicidas e convulções.

O senhor Philipp, pouco antes do fim do século, levou sua esposa e seus dois filhos para Merano, e nem mesmo o ar límpido e o verde brilhante da velha cidade italiana aplacaram a paixão infernal do seu sangue. Ele envolveu-se com a esposa de seu amigo Hans, uma tal Peppina. Ao saber do ocorrido, o marido traído foi de encontro à filha de Phillipp, Ida, de quatorze anos. A vingança é sedutora quando encarnada em um fruto fresco.

A menina inocente teve um beijo roubado, por pouco não foi violada e fugiu. O pai, ao saber da história, interpelou o marido de sua amante – que negou o fato, claro - e acusou sua filha de mentir. Peppina percebeu que era preciso dar mais consistência à ideia de que a menina mentira por estar na fase em que as paixões começam. Hospedou a garota em sua casa e dormiu no mesmo quarto que ela. Deu-lhe livros eróticos e lhe falou sobre sexo. Depois, reforçou a acusação que lhe haviam feito. Ida começou a ter enxaquecas, tosse compulsiva e afonia. Seus sintomas fizeram com que seu pai a trouxesse a mim, que o tratara de sífilis.

Ela contou um sonho: “A casa pegava fogo, meu pai me acorda, minha mãe quer parar e levar sua caixa de jóias, meu pai diz que não vai nos deixar morrer por causa de jóias e descemos correndo as escadas”. 

Agora, meu amigo, mostro-lhe como estou descobrindo as leis ocultas da mente. Considero histérico aquele a quem a excitação sexual causa repulsa. Serei eu um dia, como o criado Damiens, que ousou ferir o Rei Luis XV, grande sedutor, para trazê-lo à razão, o qual mergulhou na melancolia e extinguiu-se, acusado por romper para sempre a invisível prisão?

Dr. Charcot havia mostrado a importância dos traumas: sustos, ofensas, frustrações. A mente, como um manuscrito repleto de emendas, palavras anuladas e trechos ilegíveis, estende-se como uma catedral que vai além das três dimensões e toca o tempo. A busca de esquecimento, a inibição de uma intenção ou ideia, fazem com que entrem em segundo estado de consciência: sua lembrança retorna em ataques, muito comuns em pessoas de elevadas aspirações estéticas, religiosas (as “monjas convulsivas”) ou adolescentes de “boa educação”. Um desejo violento, em conflito com as aspirações morais.

Eu lhe falei de sua prática masturbatória infantil. Ela sentia um desejo incestuoso pelo pai e desejara sem saber seu sedutor. Nós sabemos que alguns corpos encontrados em Pompéia mostram pessoas gritando ou erguendo as cabeças em gestos de dor. Nem sempre a arqueologia revela o que nos agrada. Deveria ter demonstrado alguma espécie de afeto, tão distante do que cabe à um médico? A jovem em flor havia ido embora.

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