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terça-feira, outubro 23, 2012

Caccianimico

É o comum das coisas humanas ter dois lados - nada é como o disco de Odin, que, tendo caído virado nunca mais poderá ser visto, pois é apenas máscara.
Há mais de cem anos viveu Guilherme IX, duque de Aquitânia, a quem a Igreja persegue e odeia por seu amor às mulheres e por seu adultério: prometeu colocar a imagem da mulher de um visconde no seu escudo de cruzado. Esse homem fez as mais belas e vulgares canções sobre o amor, chamando as mulheres ora de "cavalos bons e nobres", ora de "anjos da alegria". "Tantas vezes as fodi como ouvireis: cento e oitenta e oito vezes! Meu couro está rompido."
Eu, notável em Bolonha, fui condenado pala história e pelos poetas por ter entregue minha irmã à luxúria do Marquês de Ferrara. Ele mesmo sangrou sob a espada de seu filho, roubo do ouro roubado. É verdade que cometi esse ato infame; é verdade ainda, que amava minha doce irmã.
Andreas Capellanus, escreveu um Livro final para sua Arte do amor cortês, condenado o prazer da carne, talvez por temer uma punição, sendo clérico.
Não foi por dinheiro que vendi a castidade da donzela; eu mesmo chorei caminhando sob o céu verde-dourado e não achei árvore para enforcar-me, como Judas. Não saberia ainda hoje a razão. Maldito o espelho dos espíritos da alma. Narciso é feito de sombra e substância; nosso inferno é ser eterna luta. 

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