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domingo, dezembro 30, 2012

elegia para a metrópole



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Ah, bela, engenhosa Fidalga 
vento-ideias, continente-ânsias
(os escravos viram bicho para sair do trem enlatado
o escravo que cuida da segurança e repõe mercadorias no supermercado
ficará parado no tempo por uma cama quente
os deuses da guerra com as mãos manchadas de sangue
debatem que não podemos mudar, não podemos tirar
os homens não partidos mas emparedados em cimento quente
porque vivemos no século XVIII, vivemos entre bons proprietários amigos)

São Paulo, caminhos a urgência do planalto e os poetas empilhados na terra
alimentando nossa em potência infância
pátria dos que correm o mundo com o teatro
cor da lona de circo, trocas, antigas de trilhas -
força e reencarnação - do pensamento
castelos de sonho brotando do osso adubo
teus anarquistas, teus presos, teus rebeldes
abolicionistas carregando um herói morto
e os ieieies da Augusta e Wisnik
um lado que vibra e flutua com o tempo - e ordem mumificada
o deus Hermes abre os livros em terras puras
contra a Serpente gigante que tudo congela
começam sombras e aventuras

I

Ah, bela São Paulo, te olhar com olhos serenos
Tua alma é serpentear e exibir para procriar
Tanto me deste, me tiraste – eu brotando e gemendo
a violência do inferno que arrasta para a não existência
(possa eu retomar o rito e olhar o dentro de silêncio sem medo de definir o certo)

Sinfonia no tempo, energia crua do raio, que tudo renova
Amiga do conhecimento, amiga e irmã desonrada e fodida
As fachadas da tua antiga glória - olhar onde se compra e se vende
Alegria da instabilidade, onde teus czares refazem caminhos
Camada sobre camada de flores plantadas que ninguém apaga
Enquanto teus reis tentam um novo mapa, vender a terra, controlar
O hoje como violência, a folha na roupa, o salto do salmão

Dança dura e esperança
O sentimento de um cão
O inferno do pobre, o purgatório do guerreiro, o paraíso do parasita
Eu te desejo muitas árvores, e a graça da tua história que salvará as almas mortas
(Andam fantasmas ladrões de alma, gritando pelos vidros espelhados)
Quando a gente ama, vira poeta

II
A intriga, a sombra, a vaidade
(Nascidas da solidão? que a arte alivia?)
Eu acuso a aristocracia delirante
Meu amor não é olvidade
Feita de sementes, e de duro embate
E onde tudo brota, deseja e espera ardente
Eu conheço o sombrio medo da cidade
Uma fétida Medusa, um jovem poeta? entre da gente os passos
(que olhar de pedra te fez? quem criou teu desespero?)
Insetos venenosos proliferam
Uma doce melodia tu cantas, manda um Rato

III
Rainha dos velhos tempos engravidados
Que seriam teus campos semeados
Se tua nobreza os olhasse brotados
Eu acuso a aristocracia brilhante
E a diplomacia e a condescendência de amabilidades mofadas
Por que Fiódor, eu não posso descrever paixões do céu e da terra, luz e sombra como tu?
Por que eu navego em tempestades de copo e tudo ao redor tornou-se trivial e conversa fiada?
Por que não existe o erro, a filosofia, a política, a sociologia e a religião são imensas, dão sono e sobem muito alto para nós?
A minha geração não tem inimigos porque é frígida, ama o sucesso e o sono
Treme em desagradar os poderosos, em derrubar e lutar pela luta
O mau gosto: um ponto de vista.

IV
Máquinas gigantes, multidão, cancan do girar infindo
Um povo forte espatifado e uma nobreza doentia
Um pouco analfabeto sem dentes pop e violento
Um pouco internacional belo filósofos e violento
Deixai as massas apodrecerem?
A febre individualista de uma cidade que tem medo de dizer-se
O deixar ir e a paixão do coletivo
Terra de Heráclito, onde conflito, discórdia e guerra
Esconde uma pulsão maior – eu louvo teus cantos diversos
Deusa de aço e corpos suados e peixes no Tietê
Tua ousadia, teu espírito bélico, tua sujeira e maldade
Maracas tonificadoras, deixe o pensador gozando no alto monte
Teu manto de pedrarias e de sonhos e jade
Tuas ruas, dedos de ouro, flores, cavalos marinhos
Em cada cérebro tua dança selvagem lavra, apodrece e germina
Viva tua gula pelo novo, tua distância, teus ganchos para nervos excitados
Gerações fizeram teu banquete, com pó, sangue e coração cortado e aberto
Agradeço tua boca que me devora, onde tudo se cria e copia, mar
E, esse incessante tambor que mostrou mais e diverso,
Prazer da régua, universos, logro, saber por outros logos
Lutemos por organizar sendo o centro móvel com o passado
Salas vazias, corações de plástico - tornei-me japonês, os anjos dos mil cantos da terra
Onde todos são índios, os olhares aceitam apesar de tudo
Quantas janelas para vidas, quanta fúria descoberta, como se pode ser humano
Caiam as cataratas do esquecimento sobre a tempestade que me desloca na parada
O céu, teu céu foi preso em cinza e leis, mas os deuses de ferro também caem
Amo-te, mosaico máximo, defende tua liberdade!

V
Mas os palhaços sádicos chegam com sua barraca
 - A rica pensadora livre com seus cachorrinhos e contra o comunismo
O grande político que vive de engenharia e partidas de vôlei
O fanático jovem que despreza a política para fazer a revolução
O jovem repórter assustado sem tempo para pensar e descobrir
A futilidade, a arrogância e a raiva dos duendes maus
Não são esses: pó luminoso e asas azuis em pés de fada
E os tigres que falam e as pedras cantoras; rios de chocolate e atores
Que olham da Lua e da Lua choram e riem, o peso
Vida dupla, vida detetive, sanfona e sapateado com sarcasmo
Porque a razão faz tudo mover-se e circular, eis a força!

VI

São Paulo, a chuva no dia imundo
a dor do saber contra o reino morto
Mário onde cabe o mundo

e um instante de pura alegria
memória viva e desejar
caos e poesia

catedral de forças
aranha incansável
tece um eu de milhares

teu passo agitado por entre casas
perder-se, ouvir, o sonho
um pouco de chão e outro de asas


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O trabalho elegia para a metrópole de Afonso Jr Lima foi licenciado com uma Licença Creative Commons - Atribuição-NãoComercial-SemDerivados 3.0 Não Adaptada.
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