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terça-feira, dezembro 25, 2012

Força maligna 


Eu estava exausto e desnorteado. Que outras torturas sofreria? Viriam o carrasco, o espião, o homem de fé perturbar meu corpo e mente? Meu vigia começou a contar sua história delirante: “No início, eu tinha uns 18 anos, ligaram para meus pais da escola pedindo que eu não fosse. Logo eles escondiam pessoas e queimavam livros. Os jornais estampavam: Um dia glorioso para o país! Eu parei na esquina para falar com colegas. Um policial se aproximou, furioso: Mais de dois é comício, disse. A universidade foi cercada. Começamos a tomar drogas num gesto louco de rebeldia. Fomos levados para um campo de trabalho, ou, como descobrimos depois, de extermínio pelo trabalho. Tirávamos minérios da terra, vivíamos sujos, sem comida, sem remédios, apodrecendo. Os piolhos nos sugavam e cresciam. Eram muitos, na confusão mental em que estava, e tendo ouvido falar que inquietações nervosas geram alucinações com insetos pelo corpo e infestando as casas, pensava se o inferno não seria  fruto da desorganização de nosso cérebro. Muitos choravam e tinham ataques de fúria batendo a cabeça na parede, ou começavam a tremer, ou falar com os mortos com os olhos fixos. Um deles chamava pela mãe a noite toda, mas nós nem ouvíamos mais. Começamos a comer os piolhos infectos no nosso desespero. Meu pai, por fim, descobriu meu paradeiro e comprou os guardas para que eu fosse transferido para cá.” Eu lembrava da criança alegre que fora e de como gostava de andar à cavalo e comer amoras no campo. Que outras torturas sofreria? Naquela noite, quem viria perturbar meu corpo e mente?  

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