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segunda-feira, janeiro 07, 2013


Na casa de chá

Uma tarde muito quente, sentamos em uma casa de chá e ficamos observando as flores e ouvindo os passarinhos da praça em frente. Nós estávamos trabalhando na abertura da Avenida Farrapos na capital, e eu vinha mostrar a serra ao meu colega. O movimento surpreendia para uma segunda-feira: os moradores da cidade vinham em busca do pão caseiro, das cucas e pastéis para um chá da tarde, e os forasteiros, mais em busca dos doces artesanais.  A dona, uma senhora gorda, loira e de grandes olhos azuis, apareceu para recolher louças, e meu amigo começou a perguntar algo; logo começamos uma boa conversa:

- Essa casa começou com meu pai. Eles passaram muito trabalho como colonos e ele queria uma função mais adequada para minha mãe - expliquei que os primeiros alemães haviam chegado há cem anos. Eles se orgulhavam da biblioteca pública, da faculdade e de não haver analfabetos na cidade. Tinham até um banco dos moradores. Ela continuou - Tanta gente interessante já veio aqui. Tem gente importante que sempre volta, clientes que param na cidade para tomar um café e comer uma torta.

Comentamos da cidade, de como era florida, calma e agradável. (Eu percebia que ela olhava para os lados, mas ficou tranquila quando viu que os funcionários davam conta dos clientes). Falamos sobre o crescimento inevitável, do nosso trabalho, que, planejado desde 1914, só saía agora, sobre Jango e os novos espigões da capital.

- Que horror, fujo de cidade grande! Se eu pudesse ia para o fundão onde morava minha mãe! E essa coisa de construção... Lembro de um senhor que veio aqui há alguns anos... Ele trabalhava na modernização do presídio – iam criar um controle dos presos que entravam e saíam. Isso porque eles viviam transferindo presos de um lado pro outro, e onde saíam dez, chegavam oito... e quem diz? Não se conseguia fazer! Peixe grande ia perder... Depois ele trabalhou nas estradas. Iam fazer o mesmo para controlar os contrabandos nos postos... “O senhor veja, veja que todo funcionário aqui tem carro. O senhor acha que isso vem do salário deles? Não, temos de demorar uns anos pro pessoal se adaptar, senão não sai projeto nenhum” – disse o responsável. Segundo ele, levou 10 anos. Ele contou que estava em uma reunião com quatro vereadores e um deles por nada queria aceitar o projeto. Outro disse: “Liga logo pro teu capo e pergunta o que ele quer. Vai que o cara te apaga”. Falou assim, na frente de todo mundo!  Acabaram diluindo o tal “controle”. Dizem que os comunistas querem tomar o Brasil, mas eu te digo, quando o Jango fala de reformar o sistema penitenciário... O Jango é estancieiro! O senhor sabia que “eles”, “eles” querem vender o banco do estado? Dar, eles querem dar de graça!

Ela pediu licença e saiu com um sorriso. Comemos nossas tortas de morango um pouco melancólicos e pensando que são surpreendentes os homens. 

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