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sexta-feira, janeiro 25, 2013


Uma cidade

Adeus, prefeito. O melhor dos últimos 40 anos. Muitos cravos e margaridas nos canteiros. A praça, conhecida por ser escura e deserta, foi reformada, com calçadas ampliadas, e a população passou a circular e a sentar nos bancos ao fim da tarde. Foi o que mais fez casas populares. Trocou a lama e os buracos por asfalto, asfaltou mais que a capital. Reformou prédios históricos. Mas o jornal da cidade não gostava dele.
- A saúde é o fundamental – dizia o editorial quase todo dia – e o hospital tem filas imensas!

Só que todos os filhos de Dona Sônia haviam nascido naquele hospital, muito bem atendidos.
- Eu sou bem de vida, podia pagar. Injustiça não, comigo não – ela dizia aos quatro ventos.
A população, indignada, agitava-se nos bares e esquinas. Até Seu Otávio, comerciante antigo, em frente à praça, dizia, vendo as flores recém-plantadas:
- Mas olhem os outros candidatos! Um fazendeiro grosso, que governou a cidade por anos sem mudar nada! Uma madame desvairada que só pensa em compras e intriga! Um advogado que olha todo mundo de cima só porque seus avós são europeus!

Seu Manuel, plantador de maçã, de 82 anos, completava:
- Comunista, mas trabalhador...

Os jovens vibravam com um centro cultural embaixo da Igreja: cinema de graça, biblioteca, música clássica aos sábados e a história da cidade nas paredes. Elisa, advogada recém-formada, que passara 12 anos fora e abrira um escritório recentemente, colocou as mãos na cabeça:
- Vamos voltar a ser o fim do mundo!

O prefeito havia comparecido a uma inauguração no período eleitoral dez anos antes. Alguns panfletos antigos com as obras realizadas foram distribuídos nas casas durante a última eleição. O caso acendia debates: teriam escondido os panfletos para derrubá-lo? Seria inteligente fazer isso por alguns votos? Ele realmente era corrupto?

Dona Berta, empregada doméstica, disse à sua patroa:
- É, se errou tem que pagar; não votei nele, nem gosto desses meninotes que querem já ser prefeitos; mas dou graças à Deus da minha rua não ser mais de terra, senão... Está certo, está certo, mas no meu coração... Eu estou tão triste. A gente já viu tanta obra errada, tanto ladrão grande... Ai, o povo! O povo, sempre sofrendo! E, além disso, graças ao hospital, agora vou voltar a ter meus dentes.
A cidade ia silenciando enquanto o sol se punha. 

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