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domingo, fevereiro 03, 2013

Presente diabólico

O centro parecia deserto, com seus prédios antigos e calçamento de pedras claras. Alguns moradores de rua, um carroceiro, seguranças. Sentaram e pediram um café.
 - Trinta minutos esperando para sair do bar, chuva torrencial. Meu guarda-chuva se desmontara. As calçadas estavam cercadas por rios. Eu vi uma mãe pulando com um bebê de colo por sobre a água. Foi um mês inteiro em dez minutos de tempestade - dizia Momai num jorro. 
- Pai, tudo bem. Hoje vemos essa peça e pronto. Não fico magoada. Não sou mais criança. Conte-me sobre o caso. 
- Só espero que sua mãe não... - ela deu uma risada - Ok. Uma mansão. Uma festa de aniversário. Invasão. Os homens são presos no banheiro. As mulheres, amordaçadas, vendadas e estupradas coletivamente. Terrível. 
- E você desconfia que não foi nada disso. Por causa do poema de Lorca. Realmente, é estranho apenas uma delas ter sido morta. 
- "Tua boca já sem luz/para minha morte". Por que uma secretária escreveria isso na primeira página de sua agenda?
- E você comentou sobre uma reportagem de jornal guardada, na mesma agenda, sobre o comandante da polícia que teria ordenado a morte de uma juíza, e foi pego pela nova lei de armas, que obriga registro de toda a munição, para saber quem a comprou. 
- Outra reportagem falava que a maioria do Congresso recebeu mais de 1 milhão da indústria de armas. E quer modificar a lei?
- Realmente: é muita coincidência. O chefe da moça era o presidente da Câmara, Marcelo Costa, que acusou o prefeito de corrupção e conseguiu sua cassação. Sobre a festa, você parece duvidar da teoria da invasão. 
- Muito fraca. Os donos da casa, dois irmãos, afirmam terem sido amordaçados e trancados em um quarto, enquanto suas esposas foram trancadas no banheiro. Por que todas as mulheres foram estupradas, menos suas esposas? 
- Você acha que a vítima pode ter visto os criminosos? E a "invasão" seria uma espécie de "presente de aniversário" demoníaco? 
- Sim, ao que parece. Não acredito que estou falando isso com minha filha adolescente. 
- Se você leu Conan Doyle, sabe sobre as "tendências hereditárias". Eu fui feita para o crime. 
- Ele também pensava que tudo era previsível porque se repetia, não? O mundo era estável, e, portanto, dedutível sub quadam aeternitatis specie. Não haviam dito ainda: "A mudança é o sistema e os sistemas têm que mudar".
- Você falou de uma irmã da secretária? Vai procurá-la, não?
- Sim. Vamos subir, faltam cinco minutos. 

A irmã o recebeu no apartamento onde ambas moravam. 
- O senhor lembra que, no ano passado, o vereador defendeu publicamente um aumento de 60% para o legislativo?
O judiciário também pedira isso. O prefeito não aceitou e fez uma campanha pela mídia. Logo em seguida, foi julgado por corrupção. 
- Sim, estou ciente. 
- Minha irmã queria sair do emprego. Estava assustada. 
- A senhorita acha que pode ter ouvido alguma coisa? 
- O senhor deve lembrar que ano passado, durante uma greve da polícia, que durou 4 dias, ocorreram 180 homicídios. A maioria deles de jovens, negros, usuários de drogas da periferia. O prefeito estava pressionando por investigação. 
- Obrigado, senhorita. É bom termos quem lembre do dia de ontem. 

Hélio estava empolgado. Tomavam um sorvete.
- Um deles confessou. Eles mataram a moça porque ela ouviu seus nomes. Eles mesmos compraram os materiais para amordaçar e amarrar as vítimas no supermercado da cidade vizinha. Mas tem uma coisa que ainda me intriga. 
Eles juram que a ideia não veio de nenhum dos dois irmãos. Teria sido uma criação do terceiro homem, o André Padilha? Eles ficaram em silêncio. Ele sumiu. 
- Tenho uma teoria: por favor, rastreie o celular desse homem. Tenho certeza de que ele tem envolvimento com o presidente da Câmara. O diretor do Departamento de Homicídios, durante a greve de policiais ano passado, afirmou que havia a suspeita de que 30 assassinatos no período haviam sido cometidos por policiais? E chegou a dizer que o comando da greve poderia ter ordenado as execuções para causar comoção na opinião pública? O vereador Marcelo tem histórico de defesa de grupos reacionários. 
- "Tua boca já sem luz/para minha morte". 
- Os estupradores têm que pagar. E, quando André cair... Não é a República das Bananas, afinal. Nunca duvide do poder da arte - Momai riu, acabando com a bola de chocolate. 

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Presente diabólico de Afonso Jr. Lima é licenciado sob uma Licença Creative Commons Atribuição-NãoComercial-SemDerivados 3.0 Não Adaptada.

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