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sexta-feira, fevereiro 01, 2013

O fantasma na máquina

- Desculpem o atraso - Hélio disse. Chuva e alagamentos.
- Por que você nos convocou, Momai? Não conseguiu sozinho? - a mulher elegante, aparentando vinte anos, disse de seu divã.
- Pare de irritá-lo, Perséfone. Ele nunca se apaixonará por você. Ainda que seja a única mulher capaz de parecer para sempre uma adolescente - respondeu um homem gordo, de bigodes, com um boné, camisa polo, casaco de tweed e tênis. 
- É evidente, Dr. Orlando. Ele só sente atração por mulheres vulgares - ela disse. E sabemos de algumas histórias de colégio...
- Ele não sabe o que é sexo faz tempo - disse um homem sentado em sua poltrona, alto e magro, muito bem vestido, de cabelos negros desgrenhados, que descansava sua perna mecânica sobre um puff.
- Crianças, crianças - a senhora de cabelos brancos e olhos violeta pousava uma bandeja com bolos sobre a mesa - Vamos direto ao assunto. Um cientista e professor famoso. A morte ocorreu por asfixia. Um hematoma grave na cabeça, caída sobre a mesa. Um papel queimado no cinzeiro e uma caixa de presente aberta. O quarto, trancado por dentro; a mãe e a filha, que moravam com ele, dizem nunca ter notado semelhante atitude. Uma casa muito alta. Ninguém ouviu nenhum tiro. 

- Lembremos do nome "Dyle" ou "Byle", que ele escreveu com as mãos trêmulas na capa de um livro antes de morrer, Albertine - Momai disse. Todas as descrições nos falam de uma inquebrantável força de vontade. Alguns falam mesmo de uma pessoa fanática. 
- Em primeiro lugar - disse o homem alto - é preciso perguntar quem são as pessoas ao redor. 
- Bravo, Maravoglia - a bela mulher falou - Quando fui convocada, fiz minhas pesquisas. O professor Shin Lun é um amigo, especialista em psicologia cognitiva, conhecido pela tese de que "não existem pensamentos e emoções: existem neurônios". Dr. Luiz Paiva, de tendência platônica, estuda a relação entre corpo e linguagem, com influência da antropologia e da psicanálise. Dra. Lisa Pietrovna é especialista em psicologia social e comportamento de grupos. Lívia Kartz é a professora assistente, ambiciosa, que vem ascendendo rapidamente no mundo científico e foi contratada à peso de ouro, depois de um doutorado na Suíça. 

Hélio estava ansioso. Não gostava de se sentir um penetra no Círculo, onde "mentes brilhantes" discutiam de modo ultrasecreto crimes "impossíveis". Dr. Orlando percebeu. 
- Nosso querido investigador chefe... Para nós, você pode contar. Continua escrevendo romances de detetive?

Ele foi pego de surpresa e interpretou como ironia: 
- Pelo menos eu não sou um velho médico sem pacientes, que gasta tempo com golfe e sessões mediúnicas.
O doutor deu um sorriso condescendente e pareceu desviar de assunto: 
- Algumas vezes eu me pergunto: por que as pessoas gostam de mistérios? Em parte, talvez por isso mesmo: provar que a realidade ainda tem brechas, sombras, está em processo. Além disso, um mistério mantém a intensidade da mente aberta, propicia a criação de hipóteses e incentiva a atenção flutuante; criar é um prazer para os humanos. Todos os livros são de mistério: o que vem depois, quem são essas pessoas, que linguagem ainda verei?
- Uma pistola de ar comprimido! É claro! Pela janela... Eu li isso em um romance, eu acho... - a senhora disse, enquanto servia chá. Ele recebe uma caixa com uma coisa comprometedora, sente-se mal, vai até a janela... Talvez tenha sido atingido ainda sentado. Mas não por uma bala, por um objeto inofensivo, até mesmo uma borracha comum, mas que distrairia as atenções... Alguém iria olhar ao redor quando o cadáver tem um hematoma? Mas, além disso, um ferimento enorme com bala de fragmentação poderia nos fazer imediatamente imaginar um atirador. Ou talvez... eles quisessem Momai!

- A caixa! O homem tentou queimar a carta ou foto comprometedora - diz Momai. O papel foi preparado com uma substância altamente tóxica... Lívia Kartz estava certa ao afirmar que o ambiente universitário era asfixiante. 
- Uma análise das cinzas pode confirmar isso - disse o doutor.
- Em uma conferência, há dois anos, ele disse: "As pessoas desejam consolação e acreditam em fantasmas: inclusive o Dr. Paiva. Se eu morrer, vocês já conhecem o culpado" - lembrou Hélio.

- Mas a pergunta é: por quê - disse Penélope, pegando o violino. 
Malavoglia falou:
- O sr. Ryle foi professor de Filosofia em Oxford e autor da expressão "fantasma na máquina", para criticar o dualismo cartesiano. Descartes havia defendido a existência de uma substância "mental" oposta à "material", tanto por não crer que as poucas peças que ele identificava como o cérebro fossem capazes de gerar as combinações necessárias para um pensamento adaptável, quanto para poder definir o mundo como máquina sem alma, e estudá-lo livre da Igreja. 

- Sim, disse Momai - Para Gilbert Ryle, era preciso usar a navalha de Ockham - não utilize teorias além do necessário. Seriam as variadas atividades humanas que nos levam a crer que existe vida mental. Além disso, apenas a ciência poderia nos revelar a verdade sobre nós mesmos. 
Momai levantou-se do sofá com um pulo.

- Ouvi uma palestra do nosso homem na internet. Ele afirmava que nosso comportamento e escolhas podiam ser definidos pelo ambiente e pelos genes. Parecia defender um ponto de vista filosófico de que só é verdadeiro o que pode ser medido e observado. Ele anuncia um artigo bombástico, no qual vai demolir definitivamente todas as formas de dualismo. Pareceu-me que sua defesa de que "os humanos são seus cérebros" era uma batalha pessoal e política. 
- Você está invertendo o argumento e dizendo que não há como provar que "a mente" não existe? Isso me lembra trabalhos recentes sobre a consciência como qualidade emergente de um sistema complexo - disse o médico. 
- Quando conversei com Dr. Paiva, ele me pareceu preocupado com a competitividade do colega - disse Hélio. Ele lhe teria escrito uma carta sombria, mas que havia desaparecido. Outros confirmam uma enorme animosidade entre eles. Ele me jurou que o tal "artigo bombástico" ficaria na gaveta por estar sendo criticado duramente mesmo antes de publicado. Shin Lun me descreveu uma conversa em que ele disse temer pela sua vida.
- Dra. Lisa chegou a falar de "disputa mórbida" entre eles - Momai completou. "Se quer achar malucos, procure entre os psicólogos", ela disse. 

- Parece que alguém quer evitar a desmoralização de uma teoria. Um dualista fanático. Querendo eliminar um cético materialista - Penélope disse.
- Quem mataria um cético? - Momai andava pela sala - Nos assassinatos do "psicopata profeta", uma morte, a de uma estudante, estava ligada ao pensamento de Mandelson - "Fé privada". Outra, a de uma empresária, à visão de Spinoza: "Deus é natureza". Estava falando da secularização do mundo e a culpando pela "libertinagem" e "capitalismo selvagem". Um "desvio" de uma sociedade secreta. No caso mais recente, imaginei que o morto fazia parte dessa organização internacional.
- Então aqui teríamos um terceiro "desgarrado" do time, pronto para desmentir o positivismo com sangue? - disse Lady Albertine. Digo isso porque a sociedade secreta se exporia demais agindo ela mesma.
- Ela pode permitir. Talvez seja um inimigo mais poderoso. Ele quer o jogo. Enquanto alguém pode ter convencido o professor de que estaria em perigo - disse Dr. Orlando.
Penélope largou o violino:
-  Ele recebeu a carta que ele mesmo havia escrito para Dr. Paiva - que rede poderosa! - e que podia criar um vexame. É insano, por isso, provável. Ele mesmo estava convencido da torpeza de seu colega. Como afirma o provérbio: "caráter é destino".

- Vamos procurar sinais de um atirador. Na frente da casa há um prédio vazio. E buscar quem poderia ter preparado o papel com a substância nociva. Mas eu acharia uma solução bem interessante para o incomum trancamento da porta. Obrigado, amigos. Até um dia. Vamos, Hélio. Temos trabalho pela frente.
Momai e Hélio saíram rapidamente. A chuva continuava. 
- Ele nos procurou por estar inseguro? Eu me preocupo com a tal sociedade secreta - disse Lady Albertine. É bom ficarmos atentos. 
- Momai nunca deixará de parecer um fracassado perdido numa cidade insalubre e inviável - disse Malavoglia, acendendo um cachimbo. 






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