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sábado, janeiro 25, 2014

"Bola"

Ela entra no ônibus. No fundo, universitários falam de Gramsi e Durkheim. Não malha, pensam eles, uma bola, pensa a universitária de olhos verdes. Ela pega às 9h, eles estudam de graça. Ela tem que sentar ao lado, abaixa a cabeça, liga os fones. Abre seu livro. Olhares de desprezo. O ônibus para. Uma arma. Os homens estão loucos, pegam tudo, na cabeça, batem numa mulher, que cai. Minha deusa, pega aqui, ela deixa cair o livro, eu vou embora. Suor, calor, ela treme. Querida, faz isso pela gente, fala a estudante de olhos verdes. Precisamos fazer nossa parte, vamos ficar até quando aqui? - o jovem alto e malhado. Vem minha deusa, eu libero todo mundo. Você sabe que quando demora, chega a polícia, e pode ser pior, o loiro de rasta fala. Se fosse você, teria orgulho de ser a mais gostosa, pra ele – o futuro filósofo fala. Meia hora, chega a polícia, calor, choro, desmaios. Só saio daqui depois de gozar. Um líder comunitário fala do egoísmo que domina a sociedade, do consumismo-individualismo-capitalismo que aburguesa as relações, do pobre como reprodutor dos valores burgueses, do moralismo. Ela pega por dentro da calça, ele responde, as mulheres fecham os olhos, os homens disfarçam a ereção, cueca molhada, o homem geme, força, ritmo, mais, grito, trabalho feito. Olhares de desprezo. Eles vão embora.
Elas estão acostumadas, essas gorduchas - diz a universitária ao descer do ônibus. 

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