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segunda-feira, janeiro 06, 2014

Invasão

Meu bisavô, dizia tio Francisco, chamado Chiquinho por ser um taura de dois metros e vinte, Chiquinho, herança do nordeste remoto, deixado há um século, deputados da Paraíba, meu bisavô, dizia ele, estava na casa de um inimigo político, mas irmão de caçada e churrasquiada, ele disse, vamos derrubar a ponte pros teus amigos não invadirem nossas terras, que era republicano, não, disse o Onorato Furnas, eles hão de vir bem na semana ainda, que se nos pegam amigos nos furam, vou mandar o peão recolher o gado e tu seca as botas no fogo da cozinha do chão, e quando o sol se baixa e volta o peão afogueado, que já cruzaram o rio, vem de passo largo os bandidos, o tempo pouco, joga uma capa campeira por cima do couro, chapéu de aba velha, se esconde na cozinha de terra batida, chega o capitão, Onorato que sua, mas que nervoso é esse homem, se é nosso correligionário, sou mas nem pra avisar essa gente, que carneava uma vaca pra receber, assim ficaram contentes, o velho Joaquim coronel um pingo de gelo na espinha, e vamos de trote nas casas todas, matar Nô, que Joaquim chamava, este e aquele e as mulheres pegamos, e de vermelho o chão dos republicanos, Joaquim dobra a barra da bombacha, como peão abaixa a aba do chapéu, passa pelo meio deles, Onorato mudo, sobe no cavalo e galopa, pegando todos de surpresa na alvorada, sangue do norte cavalgado, fincado na terra por ideal de república, e sorvia o mate Chiquinho, um taura que sempre lembrava.  

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