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terça-feira, janeiro 28, 2014

Minha casa

Essa janela de madeira alta, escura, me lembra a casa da minha infância. Uma casa verde, depois lilás, amarela, aquela cidade calma e tranquila. Eram peças enormes, portas altas de madeira, eu nem conseguia fechar o trinco de cima, quando ia estudar no escritório. O quarto do pai e da mãe era tão grande que dividiram no meio e fizeram meu quarto. No corredor, sua vó tinha plantas. Todo ano tinha alguma reforma, eu nasci em meio a reformas. Minha mãe durante o dia, fazia doces, visitava amigas, andava no jardim plantando, dava ordens sobre a casa. A Dada, ela veio morar com nove anos com tua vó, a Dada ajudava nas encomendas, limpava a casa, depois aprendeu a costurar, tinha orgulho de ter o próprio dinheiro. Quando eu nasci, seu avô ja era aposentado, se aposentou jovem, acho que por causa das guerras. Ele entrou para o exército com 16 anos, o avô dele conseguiu, uma forma dele se sustentar. Ele passava o dia lendo, cuidando dos carros, pescando, cuidando das reformas, pensando nos próximos acampamentos nos quais iríamos na Lagoa Mirim, no Uruguai ou outro lugar. 
A mãe era querida por todos, ajudava Deus e todo mundo, mas em casa, às vezes, era dura. Uma vez perguntei para minha avó porque minha mãe era assim tão severa. Filha de fazendeiro, me disse vovó Edwiges. Eu e meu pai ficávamos na beira do rio, o céu ia ficando escuro. Uma vez eu tropecei numa rua de pedra, quebrei os dentes. Meu pai me abraçou forte. Eu me lembro dos olhos claros do meu pai, quando o sol batia de frente, e como ele era elegante quando os dois saíam pra dançar tango. A vovó Edwiges, que era cozinheira, cuidou das filhas, o menino ela entregou pro avô no sul. Ele vendia pastel para ela quando criança. Eu me lembro da chuva no telhado, eu pequena na cama, choveu assim quando ele morreu. A gente vendeu a casa e veio pra capital. Até hoje sonho com essa casa, a costura da Dada, o vento, estranho como alguns locais se fixam na gente, e nem são às vezes coisas tão relevantes, são pedaços apenas, mas que voltam e voltam. Aqui, essa casa me lembra muito, e desse tempo que era lento, a gente tinha tempo. Eu me sentia tranquila.

Afonso Lima 

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