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quarta-feira, janeiro 22, 2014

Recontar

Tropas. Escombros de um exército. Uma divisão esfacelada. A fome aumentava.
De vez em quando, o cadáver de um alemão inchado era tirado da água. Bosques cheios de saqueadores.
Flocos gelados, os prussianos iam entrar na cidade, gelados burgueses. Uma atmosfera estranha. Rua muda.
Uma luminária ao lado da porta escura, uma janela de madeira. Dedos velhos segurando a caneta, tira o excesso.
Pela janela, uma mulher jovem e triste com o lampião.
Luz barroca. Pedem outra luz.
O bule feio de metal, a xícara de barro, um homem perigoso.
Um amigo, músico, alquebrado, uma velha senhora silenciosa.
A mãe abatida por anos de espera.
O casaco molhado de chuva pendurado na parede.
Ele está de volta, mas isso não é bom.
Ele ri como um animal.
A madrugada escura, mãos sinistras sobre a bolsa de couro.
Um homem olha o mar metálico ao lado de um navio alaranjado.
O diretor, de camisa listrada, pede silêncio. Vamos filmar.


Afonso Lima

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