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domingo, janeiro 19, 2014

Sobre livros

Fui convidado para uma leitura do meu conto e uma mesa. Chegamos, deixamos as coisas, café. Deslumbrados com a cidade.

De alguma forma alguma coisa está acontecendo, e é grande. Está submersa. A única forma de sobreviver é cuidar do jardim.

Da rodoviária ao hotel, sento ao lado da revelação baiana, que está apaixonada por Borges, Borges era contra o sistema. "Uma coisa dentro da outra, entende?"

Pousa sua mão na sacada, olha o rio. É um monstro que se mexe, ela quer gritar. Está nascendo e dói. Tudo está bem, que influências são essas, que turvam a água? Elas não vêm de dentro. São neblina. Parar é a ação mais importante. 

Na recepção, a mulata paulistana com vestido florido e Ricardo Piglia na mão é sexy, flertamos, ela tem um namorado de dois metros e sete e bermuda.

Triste. Pousa sua mão na sacada, olha o rio. Ouve vozes. Tem um buraco. 

No quarto, o cubano e o sueco. Dissertação sobre charutos, o sueco quer me ensinar tudo sobre Bergman. Eu estou ansioso, instável, quero dar socos em alguma coisa, quero resolver o mundo hoje.
Temos sempre que correr, sempre uma nova programação, a política e a literatura, a literatura e todo o resto, a literatura e a literatura.

Uma jovem quer uma entrevista. Olhos piscantes, sedutores. Macho alfa.

Manipuladores de símbolos. Borges é realmente um personagem fantástico. Ele deveria aparecer como personagem em um livro onde escreve um ensaio sobre um livro já escrito. 

Por que eu deveria participar de feiras literárias, penso sentado na mesa sobre novos autores. Somos produtos de elite, precisamos seduzir - se tivesse um editor, ele diria com seus olhos azuis brilhantes. Eu podia estar produzindo, penso. Tantas anotações prometendo história. Lembro do meu padrinho literário, as pessoas fazendo círculos ao seu redor e penso que talvez seja algo que não é ele. Continuar.

Caminhamos pela cidade. Um cemitério. O cubano conta histórias de fantasmas. Ele é sexy pisando um mármore com heras.

A literatura me reorganiza. Borges deve ter um pouco de razão sobre a primazia ontológica do intelecto. Quando eu me perco, busco no saco do passado arquétipos. A sensação de que algo aconteceu. 

Eu devaneio. São dois anos. Um abraço gostoso. Muitas descobertas do corpo. E o amor? Será uma questão linguística? Você sempre quer algo diferente do que tem, bem pisciano, a amiga antropóloga falara bebendo chá de jasmim.

Outra flecha já entrou. Uma flecha muda. No fundo são duas raízes que se juntam. Já existe, mas está no futuro, só eu posso ver. Os desejos, as sombras, o medo turvam tudo. É que nosso olhar já se encontrou. Não é para agora.

A "imprecisão ondulante" da literatura, onde ser e não ser coexistem. Pousa sua mão na sacada, olha o rio. Ela decide voltar ao ensaio sobre Borges, o "manipulador de símbolos", o "geômetra criador de universos". Ela é dupla. Como são obscuras as realidades invisíveis.

O cubano oferece um café. O sueco conta sobre as filmagens de "O ovo da serpente". "O homem é um abismo e a vertigem me assalta quando contemplo suas profundezas". Ele lembra da epígrafe do roteiro.

Lucia pousa sua mão na sacada, decide falar de sua aventura em Cuba. Seu seminário com Garcia Márquez. Romancista, diretora, roteirista. Naquela viagem, uma colega foi encontrada morta. 

Estamos exaustos à noite. Vamos a uma festa com música - cubana. O negro é uma máquina, o branco olha triste. Vou ao banheiro. Tem uma festa. O sueco quer falar dos Morangos Silvestres.

Uma amiga que escreve Bildungsroman me acha, diz que tenho que sentar com eles, lá está uma editora de livros infantis, é minha chance, ela ama meu texto. Será que Faulkner é melhor que Guy de Maupassant? Como reagir ao chamado das ruas? O sueco olha o relógio, odeia a literatura.

O cubano sai abraçado com a escritora húngara, a crítica argentina chega com uma bomba: um jornalista maranhense está desaparecido. A última vez que o viram, saiu num Chevy azul-petróleo com um alemão.

Sinto um abismo negro no meu coração longíncuo enquanto sorrio para a gaúcha que faz Letras e conhece meu trabalho. Ela quer o sueco. Sinto que preciso demais de alguma coisa, e a única forma de ficar inteiro é continuar onde estou. Quem sou. Não podemos nos abandonar. O tempo das coisas.

Tudo correu bem, chego em casa e não tenho forças de colocar as malas em lugar algum. Mensagem de texto, maranhense considerada morta. A única coisa que me ocorre é que algo vai mudar.

Afonso Lima

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