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domingo, março 09, 2014

Os mundos inacabados

Lady Luvia, com seus vestidos negros e seu cabelo ruivo. Ela escrevia poemas que falavam de um estranho mundo, onde todos eram animais cinzentos e de pele dura. Alex e Matti eram gigantes com pés sujos e mãos sujas de tinta negra. O antigo manuscrito. O que diferenciava essa Biblioteca era que guardava pedaços de mundo. Quando alguém descobria nela um volume, algo se manifestava. Quando algum volume era perdido, coisas desaconteciam. Porque podia-se ficar entre os milhares de volumes sem estar inscrito. Era realmente impressionante como a variedade das coisas, que crescem, que surgem, que definham, dependia de sua ordem na estante e de seu número nessa ordem. Foi assim que os funcionários decidiram buscar nela um antigo manuscrito que descrevia uma terra de gigantes, um mundo onde todos eram inacabados, eram gestos de mau humor e pensamentos suicidas na mente de Deus. Achando essa obra, eles a abriram sobre a mesa, a numeraram e de fato surgiram Alex e Matti sob a luz do luar. Eles beberam cerveja, eles cantaram baladas, eles se amaram subitamente de forma nova na beira do rio que transbordava devido às chuvas de ontem.  (E, no espelho da biblioteca, refletiam pensadores nascidos e não nascidos em trinta mundos inacabados). Alex e Matti eram gigantes com pés sujos. Como nunca acabavam, escreviam outros mundos para dar fim à sua angústia. Eles nadaram criando seres tão sujos como eles no rio em tumulto. Por fim eles organizaram sua própria biblioteca no castelo de seus ancestrais. (E, no espelho da biblioteca, refletiam pintores de paisagens e retratos e escultores em trinta mundos inacabados). Nela surgiu Lady Luvia, com seus vestidos negros e seu cabelo ruivo. Ela escrevia poemas que falavam de um estranho mundo, onde todos eram animais cinzentos e de pele dura que viviam ao redor dos menires,  altos blocos de pedra inscritos para seus antepassados. (E, no espelho da biblioteca, refletiam cisnes cantores nos mundos inacabados). O livro foi jogado ao fogo por um ajudante que pensou estarem blasfemando contra o poder do Senhor da Natureza. 

Afonso Lima

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