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terça-feira, março 04, 2014

Os prisioneiros do forte

A fogueira já foi acesa. Ele não terá o duvidoso benefício de ser enforcado antes. Isaac tem 22 anos.
Na beira do rio São Francisco, cai o forte Maurício, sendo presos duzentos soldados, entre eles dez judeus. O bispo da Bahia o manda para a Inquisição.
O rei envia carta ao Tribunal esclarecendo sobre o Tratado de 1641. 

Antônio Vieira, conselheiro do rei, estava preocupado com o destino dos embaixadores portugueses em Haia, assim como com sua credibilidade junto aos comerciantes judeus. Vestiu seu manto negro e foi até os aposentos do Inquisidor-Geral.
- Não os mantenha no cárcere.
- Vou processar o rapaz.
- Quer queimá-lo vivo?
- Se ele negar Cristo.
- Portugal vai afundar. Vossa Excelência contraria frontalmente a política do rei. 

Sem o apoio dos judeus de Amsterdã, não haverá reconstrução do reino. O reino, empobrecido, pode ser invadido pela Espanha ou pela Holanda. O inquisidor geral era suspeito de apoiar os espanhóis. Quando Portugal pediu um mês de trégua, Filipe IV dissera: "Nem um dia sequer". 
- Um dia, provarei seu sangue infecto.
- Eu defendo a fé com meu sangue. Eu venero o Antigo Testamento. Todos os reis aceitam os judeus, mas Portugal vive da memória triste de 1497. Um judaísmo secreto e perigo constante. Esses burgueses fizeram a grandeza da Holanda. Queime esse rapaz e nosso reino estará condenado.
- Um dia vou processá-lo.
- Fiz mal em libertar-te da Torre, traidor.
O jesuíta saiu pela noite de Lisboa com seus guardas. No céu, as estrelas não eram mais esferas de cristal, o mundo não era mais governado por ideais aristocráticos, limpeza do sangue, judeus não poderiam perder os seus bens por serem processados. Quando Cristo voltasse e usasse Portugal como vanguarda do Novo Milênio... Viu, na sua visão profética, o rapaz como um santo herege em meio às chamas. Algo gelado desceu pelas suas costas, imaginando que ele também poderia cair assim. 


Afonso Lima

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