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quarta-feira, maio 14, 2014

Com as próprias mãos

       Eu estava no trem, acompanhado de um jovem conhecido, Olímpio Dias, estudante de direito, que havia por acaso encontrado, mas minha mente estava nela, em seus hábitos misteriosos e reclusos. Eu tinha imaginado coisas horríveis sobre ela, eu a vi sorrindo com meu escravo liberto Josias e queria imediatamente revogar sua liberdade, mas me contive. O jovem, por fim, desistiu de me ler sua nova peça, pareceu irritado, e permanecemos calados até chegar à estação. Quando descemos, lá estava ela me aguardando, muito bem vestida, talvez um pouco sem propósito, e um sorriso se esboçou em seu rosto. Seria timidez, amor recatado, interesse no meu jovem amigo? Os olhos dele brilharam ao vê-la. Tomamos um café juntos, e ela me perguntou sobre nossa viagem à Petrópolis. Por gentileza, tive de convidá-lo a tomar a barca conosco. Aceitou. Eu os vi conversando longamente sobre música, ele parecia especialista em árias, polcas e tangos, e eu já não sabia se seu olhar era de delicada resignação ou de curiosidade astuciosamente encoberta. Fomos à ópera mais tarde. A mesma cumplicidade. Quando lhe falei sobre isso, ela riu discretamente e disse: - Você não entenderia, querido. Ele não é esse tipo. 

       Ele ficou hospedado em nossa casa, a seu pedido. Dona Glória, a governanta, pareceu sorrir como que dizendo: como ele é inocente. Eu vi quando, em nosso jardim, próximo à fonte, ela pareceu entregar ao Josias um bilhete. Seria um encontro? Eu a inquiri tentando manter a calma. Ela desviou-se. Fiquei carrancudo o resto do dia. Por fim ela disse, quando voltávamos na carruagem: - Você não me deixa ser uma boa mãe. ele é apenas um adolescente e precisa desafogar o coração. Eu farei com que sua felicidade floresça. Um adolescente! Estaria comparando-o a mim, um velho de 42 anos? Eu vira umas duas vezes ele trocar conversas sorrateiras com Josias. Uma conspiração. 

Dona Glória me disse um dia, certamente lembrando o cuidado que me tinha desde criança, enquanto dávamos ordens ao jardineiro: - Não é certo um casal jovem trazer um outro homem para a casa. As pessoas podem falar. Nenhuma amizade vale a dúvida. Tomávamos chá, no jardim e ela disse que iria pegar um xale, porque esfriava. Por um momento, desviei o olhar do livro e vi o magro jovem sumir por detrás das árvores que davam no pequeno lago. Não pude me deter e segui-o. Eu vi quando conversava com Josias, e logo veio pelo mesmo caminho minha mulher, à passos ligeiros. Os dois homens estavam enrubescidos como dois personagens do Ginásio Dramático e eu perguntei, irritado, o que era aquilo. Alice disse que havia combinado com Olímpio um encontro para prepararem uma surpresa para mim, mas eu saí com as faces tremendo de ódio. Resolvi voltar ao Rio de Janeiro, deixando-os na casa, alegando compromissos com meu contador. Dona Glória tentou me dissuadir, mas o silêncio de Alice era uma confissão para mim.

       Acabei passando mais de um mês na capital, e não respondia suas cartas, dizendo a mim mesmo que não tinha tempo. Tentava me distrair de minhas agitações. Encontrei no Campo da Aclimação um colega advogado que, sorrateiramente, me deu a entender que ouvira boatos sobre minha mulher e o rapaz. Foi então que uma ideia começou a surgir em minha mente. Eu tinha que fazer justiça com minhas próprias mãos. Não sei como descrever o turbilhão que tomou conta de minha alma depois que retornei a Petrópolis. Mesmo sabendo que o rapaz fora embora, ao ouvir como estava triste na estação, ao perceber olhares de viscondes e condessas quando eu ia às festas da Corte, até mesmo na forma como Alice tentava me agradar e propunha passeios inusitados, eu só via a traição. Voltamos, por fim, quando o ar pestilento amainou. Eu mal falava com ela. 

Um dia, propôs subirmos no Pão de Açúcar, fatigante jornada. Lá encontramos Olímpio, todo aprumado com colete e chapéu de feltro, ao lado de um amigo, Diretor Geral de Ministério, com aspirações de romancista, como nos disse. A forma como seus olhos se encontraram foi demais para mim. O que ocorreu, como ocorreu, prefiro omitir. Só posso lhes dizer que, em casa, no cair do dia, o ciúme me levou ao desespero e o desespero à loucura. Nunca saiu da minha mente o modo como ela se ajoelhou e pediu misericórdia à Virgem. Por fim, após o ato cometido, jantei bem e fui ao teatro. Na minha ausência, Dona Glória, em pânico, chamou um médico amigo da família, que, usando das ligações com a Corte, fez o caso desaparecer dos registros policiais e da imprensa. É por isso que deixo essa nota, tendo vivido recluso, sem mulheres, até essa idade avançada. Já é demais. Volto a fazer justiça, agora com um cálice de vinho. 

Afonso Lima

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