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segunda-feira, março 09, 2015

Acacaso

não não é verão
cinza sem nevoeiro
artista carniceiro
agitar o coração

pós-concretista
pelas árvores desarvoradas
herança do mal
catedral de ossos
palmeiras explodidas

não não é verão
cinza como um dia
rei devorador
tupi sem alaúde

devido ao sucesso
conspiração rearmada
belle époque 300 chineses
em quartos sujos
grita - foi morto?
trabalhador? pai de família?
vagabundo um a menos - a moça bonita
morador de rua assiste lanche
na calçada

o progresso devora
a avó pé no chão na caliça
lê pouco a empregada
cidade sitiada
a filha sem professor
sem rima possível
escola ruína
bala perdida?
era uma vez é ainda
é a noite que nos iguala

à beira do abismo
tocam por nós os sinos
os que se foram
caminham pelo mundo
o retorno - o nome,
o crime, o sonho
o mesmo
ódio guardado

como nossos pais
tem muito medo
em pedaços
velho rico
novo rico
medo do sem livro
demolição inacabada

não não é verão
cada novo olhar
possa recriar
folhas verdes
nação


Afonso Lima

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