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sexta-feira, março 13, 2015

Terra de ninguém

quem são vocês?
viajo pelo nunca antes
numa cidade feia
quero passar

círculo cinza e reta
não circulo
o imigrante o muro
dentro do carro a chuva
aqui eu não posso ir
melodrama

A idosa ganhando
o pão no Parque da Luz
o pé sujo sentado na escada
os brotos de feijão brotam
de uma artista de algodão

O policial: no meu batalhão
mulher mata mulher
homem mata homem
(será piada?)
o menino na casa furada
cinco no ninho miserável
o pensador habituado
olha através do vidro

não circulo
a chuva esse Brasil
seco e frio duro
toda a dor do condenado
preso à ferros no chão gelado
e eu já sou grande o bastante
para o melodrama

não há movimento
bebendo champanhe o pensador
(refugiado)
engorda dentro do carro
aqui eu não posso ir
cria o melodrama
(devolvam-me os sentidos
uma mulher abre o algodão)

Afonso Lima

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