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domingo, março 15, 2015

"Senhorita Cristine", de Katie Mitchell

Logo na primeira cena, uma mão toca um jardim de flores em um telão, que sobe e fica acima do cenário, uma casa do século XIX: à direita a mesa onde (vamos entendendo que) se produz o som; a esquerda uma mesa onde (vamos entendendo que) se produz também algo: imagens. O duplo jogo de ver o produto e ver a produção faz seu olhar correr de um lado para outro, o que seria, talvez, uma boa definição de teatro. As imagens são de uma beleza técnica perfeita: um especial da BBC.

Mas minha sensação é de que se perdeu algo de Jean e Julia. Aos poucos lembro que é a "visão de Cristine", a noiva dele. Na cozinha, você vê a luz da manhã, o vidro, a chaleira, tudo a ver com a tradição de sensações e natureza dos britânicos (trabalho anterior: "As Ondas", de Woolf). Cristine produz um ambiente nos gestos de cortar, lavar, limpar, preparar, e você pensa no que seria o cotidiano de um criado, a repetição. Apesar do texto interessante e das imagens poéticas, eu me distraio. Falta aqui o que faz o público "pensar junto", "humm acho que esses dois..." Porque tudo começa como se o absurdo de se passar por cima da classe, um rompimento, não fosse acontecer. No fim é isso, eu sei.

Logo na primeira aparição, Julia é só uma menina fogosa. Já sei o que vai acontecer, perde-se o ar de mistério da peça: Júlia tem um desejo, é reprimida, seguem as convenções, não consegue se segurar, vai sofrer porque assim o mundo quer. E Jean (que fala pouco e cuja cena mais forte é fazendo a barba) é interessante, mas não é o Jean que eu conheço, infantil, sensível, leviano, sem escrúpulos, que fala pela primeira vez talvez como é ser um pobre desgraçado, mas cada vez mais só um homem grosseiro. A própria Cristine, poderia ser mais que uma moça ciumenta: e se as criadas fossem menos presas a convenções sociais ("Você ficou brava comigo"?/"Por uma coisa tão sem importância... Conheço meu lugar"), e se ela se solidarizasse com a outra que, escrava como ela, se destruiu sendo livre? Strindberg, não por acaso, disse que Julia tinha 25 anos e Cristine 35. Como eu já sei onde vai dar, mesmo as belas cenas do quarto de Cristine não me tocam tanto, mas devo dizer que a produção de um sonho, com diversos planos de processo e a imagem surreal que envolve água e fogo, rostos que se misturam e pés no jardim são de uma delicadeza incrível. É a mais bela cena da peça. A montagem, a precisão, o rigor nos fascinam.

É como se o realismo do teatro britânico encontrasse seu lugar natural e extremo (apesar de que um vídeo no Youtube dá a entender que o processo da diretora começa com bastante fisicalidade do ator em workshops, onde propõe bastante). Em palestra na tarde de ontem, Dmitry Krymov, diretor de Opus n.7, falou de seu processo que se contrapõe à tradição russa de trabalho com o texto: quer manter o interesse, não se importa que não seja tudo entendido, quer que a imaginação percorra um caminho para que "uma coisa fale de outra coisa", para que os objetos falem. Talvez seja um pouco isso, mas a imagem como metáfora parece me tocar mais.

Katie Mitchell por fim me capta novamente pela forma mesma do ato: a traição. Cristine ouve a discussão na cozinha, olha atrás da porta, Julia tem uma a mala, Jean está furioso e ela prepara sua navalha para... fazer a barba. Ele a afasta para a missa, quando ela retorna, enxerga sangue. É um final bem impactante.

A discussão na saída girava em torno da questão: "vale a pena ver um filme no palco"? Em "Ozzz", do grupo português que ocupa o Sesc Belenzinho, eu assisti praticamente um filme, gostei muito, não é o caso. Eu sei que refazer um clássico requer que se pense sobre ele, que se tenha um ponto-de-vista que responda à questão: "por que mais um..." A diretora diz num vídeo estar cansada de tantas palavras. Todos nós estamos, mas é preciso lembrar que o que é dito deveria esconder o que não é dito. Não dá tempo para amar Julia, mesmo que ela se mostre boba e sonhadora no final.

Katie Mitchell nos oferece um banquete para os olhos, é contemporânea na sua forma de expor o processo, entendo e me envolvo com Cristine, mas eu gosto muito mais de Jean e Julia e da forma como vão devagar e rápido. Por outro lado, o produto me comove, com sua luz suave atrás das janelas. No fim, a peça deveria ser "Senhorita Cristine" - Strindberg é um pretexto, o que é uma pena por que é complexo. Um casal ao meu lado diz, antes da peça: "Parece que é a história de uma moça rica que se apaixona pelo jardineiro". E, apesar da poesia, é.

Afonso Lima

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