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segunda-feira, abril 27, 2015

XIV

Ele chegou no escritório atrasado, XIV estava preparando as notícias do dia seguinte. Ele contou que teve uma noite estranha. Acordou em sua cama e não podia se mover. Através da parede, viu sua filha vomitando no banheiro. Numa rua dançavam muitas pessoas, drogas, homens beijavam meninas de doze anos sem rosto, uma mãe procurava sua filha desesperada. De repente um deles vira para XIV e diz: "Sou nobre, ganhei essa medalha na guerra contra os índios". Uma menina enrolada num cobertor cinzento mendiga com um bebê no colo. Onde está seu pai, pergunta XIV, ela mostra um cadáver de um homem negro, como um fruto pendurado nas árvores. Um padre ao seu lado diz: "Eu vim pedir ao senhor para deixar enterrá-lo". Na rua onde dançavam, agora se via carros queimados, ataques à lojas, confrontos. Só então percebe que no outro quarto, sua filha, que vomitava depois do jantar, desmaiara. Não pode se mover. XIV percebe um nativo escondido atrás da porta e acorda. XIV comenta que foram chamados para pensar a pauta da próxima semana, querem inserir subtextos, um grupo terrorista ou vingador solitário andara cometendo crimes contra policiais na periferia. Ele chegou no escritório atrasado porque não dormira bem, descobrira que andara pela casa procurando alguma coisa nas gavetas. Achara ao lado de sua cama um tênis sujo de sangue.  

Afonso Lima

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