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sexta-feira, junho 19, 2015

Investigação

A história se conta assim: o aristocrata belga estava fascinado pela obra do autor francês e começou a recolher todos os dados biográficos dispersos por Paris, entre a lama, o lixo e os esgotos dessa cidade que ainda pouco havia reconhecido nosso herói. 
Seu interesse de filólogo surgira quando, entre os quase cem volumes, com cerca de quatro mil figurantes, encontrara uma página supostamente criptografada, e que ele tentou decifrar de várias maneiras. Para tanto, seu olhar se voltou principalmente para as cartas. 
Um dia de glória foi quando, comprando queijo no mercado, percebeu que o vendedor embrulhava o produto num papel com a letra do autor. Os credores haviam vendido tudo que encontraram em sua casa quando de sua morte. 
Passando por sobre os escombros dessa cidade que derrubava bairros inteiros, foi colhendo confissões, objetos pessoais, manuscritos e primeiras edições. Anotando rigorosamente suas andanças, chegamos a um mapa impressionante de suas odisseias, por exemplo, quase o cruzar duas vezes a cidade em um dia. Para se atravessar a capital, nessa época se levava em torno de seis horas, graças ao transporte público insuficiente. 
Ao mesmo tempo começou o nobre a escrever detalhadamente um dicionário de Nomes Próprios, Lugares, Moda, Objetos e Animais que animavam essa obra gigantesca. Começou a dizer aos amigos que ele próprio estava incluído na página criptografa. Seus últimos dias, após a publicação de dez volumes críticos e do dicionário, foi foram de quase loucura, nos quais obrigava os convidados de seu castelo - no qual cada quarto e sala reconstituía um detalhe da obra - a assumir papéis de personagens e falava de seres fictícios como de pessoas reais. 
Até hoje não há uma explicação definitiva para a página misteriosa. 

Afonso Lima

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