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segunda-feira, junho 15, 2015

Lei da Verdade

Ele foi o grande Reformador, que fez o Congresso aprovar a Lei da Verdade em 2025.
Sua infância foi difícil, seu pai fora preso e sua mãe se tornara dependente química e caíra na prostituição, sendo resgatada por um pastor negro, que veio a se tornar seu padrasto. Foi preso pela polícia e passou duas noites numa cela, aos dezessete anos, por estar "vagando à esmo" e ter um cigarro de maconha. Um colega branco lhe emprestou livros de empreendedorismo ensinou que "a lei tem a função de preservar o dado natural da propriedade". Certa fez, já na faculdade, foi a um restaurante com amigos e a garçonete lhe disse: "Não servimos negros aqui".

Essa a outras humilhações lhe levaram a um ódio profundo e passou a ler intensamente a Bíblia, única fonte de orgulho de si mesmo, ao mesmo tempo que de ansiedade, na certeza de que uma pessoa ferida devia denunciar as inustiças desse mundo corrupto. Tornou-se pastor, vereador e deputado.
Na lei da Educação Santa, aprovada em 2022, constava um novo currículo:
- Economia, Física, Química e Matemática.
- Antigo Testamento I e II
- Castidade e repressão
- Anticomunismo e Direito Divino
- Salmos aplicados ao Trabalho
- Antissodomia e repressão ao culto negro
- Teologia do Amor e da Mulher

As mulheres foram desencorajadas de fazer faculdade ou deveriam cursar faculdades "sagradas". As crianças eram levadas desde a primeira infância à "creches evangelizadoras". Nelas se aprendia que "deve ser banido o pensamento contraditório, que gera confusão e ansiedade e torna a mente permissiva a abalos da moral".
A Lei da Verdade passou a condenar "informações não santas", "magia negra", "obras criativas imorais" e mais de mil homossexuais foram executados, aceitando-se confissões sob tortura, por "degenerar a imagem do povo brasileiro". Com a censura à imprensa e a autocensura, pouco se sabia sobre as prisões arbitrárias e as intrigas políticas.
Finalmente o Reformador foi assassinado, depois que um colega de universidade divulgou que ele escapava muitas vezes de seu quarto para visitar o quarto de uma travesti negra chamada Molly Mae.

Afonso Lima

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