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sábado, julho 25, 2015

o som de efemérides

Uma obra de metrô descobriu esqueletos
Uma cidade inteira dorme sob efeito de gases tóxicos
Penso nas casinhas antigas ameaçadas por novo cimento
Um enxame de palavras, bacantes anêmicas sentadas à beira do rio escuro
Quem me diz que o concreto é já feito também lança a sorte
Alguém me diz que não precisa do passado e só o futuro lhe interessa

Efemérides
um pouco de folhas caindo sobre mim
caminho pelo bosque de repente
a folhagem ganha um sol novo
um dedo-fruto brota do tronco
o tronco truncado de uma árvore
e o lago coberto de leves folhas

libertar o pássaro-mundo de sua gaiola
os demônios da vingança, a lua banhada na fonte
a água enamorada de Orfeu, em tempos de planejamento
discurso oficial dispersado minha inteligência universal escuta mago
o eu não se impõe
surge
treino um olhar capaz de duvidar
é o mesmo para mim
por onde hei de começar
o mesmo é ser e pensar
tenho um bom coração
mas isso não dá poesia

Afonso Lima


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