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segunda-feira, agosto 24, 2015

O dia em que meu irmão foi preso

No dia em  que meu irmão foi preso eu estava fora do país, numa bolsa de pesquisa dada pela pós-graduação da Universidade.
Eles foram fazer uma manifestação contra um supermercado de uma rede multinacional. A polícia chegou dando porrada em todo mundo. Os caras do carro de som foram ameaçados de serem atirados lá de cima, algemados, ouviram que podiam ter "provas" plantadas para incriminá-los. Até a advogada com carteirinha da OAB foi algemada. Muitos anos depois um amigo contou que a polícia do Maluf também dava porrada nos punks e skatistas "para ensinar desde cedo a ser conservador".

Minha mãe, filha de militar e criada para falar baixo na época da ditadura porque qualquer coisa poderia prejudicar seu pai, em estado de choque. Meu pai chorou como uma criança.

Na época um amigo de meu irmão escreveu um email: "Quero salientar o teu pai, eu nunca tinha conversado com ele, mas hoje tive essa honra. Teu pai não é mais um o machão galdério. Me pareceu mais um senhor maduro, porém muito frágil quando o assunto são seus filhos. Quando ele soube que tu seria preso definitivamente no presídio central, o olho dele tava cheio de lágrima, não se aguentou e saiu para o banheiro. Tem um amor muito profundo e sincero por vocês, porém, guarda a culpa de não conseguir nunca expressá-lo como realmente gostaria. Este pai nunca aprendeu a expressar tamanho amor pelos filhos, perdoa esse pai que sofre tanto com a distância dos filhos, porém não sabe agir diferente."

Minha irmã estava na faculdade e recebeu a notícia da prisão primeiro. Como contar? (Minha avó era o tipo de mulher que pagava as contas muito antes de vencerem). O pai - sempre otimista - não ia acreditar que o menino que só estudava era caso de polícia. Aqueles presídios imundos com 1400 presos, quando o máximo era 500. No Pará, serviam até uma gororoba em saco plástico, curte de custos... No país onde de 2000 a 2015 a população carcerária subiu sei lá o que, e os pobres vão em cana por um pino de maconha, revezamento de excluídos. (Os traficantes, esses pagam.)
Será que haveria algum assassino na cela? E estuprador? Minha irmã liga para um advogado que diz que "só vão passar a noite lá", "é só um susto". A mãe tinha tido um padrinho, rico, mas informado, que levara uns choques na ditadura, não podia ouvir em polícia. Até hoje minha irmã diz que foi um dos piores dias de sua vida.

Eu sonhei naquela noite que ele e outras pessoas estavam numa espécie de salão de vidro, como um navio, e ondas gigantes passavam por cima deles. Meu irmãozinho era uma criança alegre, contava histórias homéricas, dançava, jogamos muito futebol nos fundos do prédio, nessa época nosso pai trabalhava viajando no interior do Rio Grande do Sul. Quando brigava muito com minha irmã, ganhava como castigo, provavelmente contra toda a lógica, ler livros, e reclamou para meu pai aos 11 anos ter de ouvir uma palestra sobre física quântica.  Minha pedagogia...
Durante anos essa criança havia suportado minha retórica enquanto tentava se concentrar em algum livro de Érico Veríssimo ou José de Alencar. Uma vez, abri um livro de Kant e comentei: "Que bom, esse texto está sublinhado, nem lembrava que tinha lido". "Fui eu", ele disse cabisbaixo.

Meu irmão dormiu com outros vinte presos, homens sofridos, homens "marcados pela sua situação social", como narrou depois. Ele disse que só sentiu uma grande tristeza. Um bando de universitários idealistas, esses rapazes sentiam de repente que não podiam se manifestar, que qualquer irrupção de rebeldia podia colocá-los no mesmo nível em que viviam os brasileiros muito pobres, uma sub-cidadania controlada e reprimida.
Ele escreveu depois:
"As  celas  eram cubículos  gradeados,  escuros,  úmidos  e  muito  frios. Misturavam-se  restos  de  pães,  banana,  urina  e  fezes,  onde,  por  vezes,  passavam ratazanas em busca de alimentos. Ali, sentados, os presos políticos passaram boa parte da noite. Fantasmas começavam a rondar suas mentes. Eles foram ainda trocados  de cela  uma três  vezes durante  a  noite,  passando também por identificações,  fotografias, etc. O mais duro durante a noite, porém, foi suportar o frio lancinante, que congelava seus corpos permanentemente tiritantes, sentados em uma bancada gelada, durante toda a noite. Dormir um pouco era um sonho impossível." Quando eu li isso, lembrei-me dos manuais que durante anos a CIA fomentou na América Latina...

De Buenos Aires, eu apenas acompanhava tudo pelo skype e pensava que minha avó estava certa. "Vocês pensam que as coisas mudaram, não mudaram nada".

Afonso Lima

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