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sábado, setembro 26, 2015

Pobreza em Plínio Marcos - sobre "O Abajur Lilás" de Tanah Côrrea

Pelo que eu entendi, a geração de 1970 no Brasil, tentando reconstruir um pensamento depois da escuridão que se abateu em 1968, e, isolada dos impulsos vanguardistas que, na França, por meio de Artaud, do surrealismo, de Beckett e de Ionesco leravam a um teatro antidramático, metalinguístico ou lírico, na Inglaterra, através de Beckett por Harold Pinter, a um teatro de estranhamento e da linguagem transformada na tradição realista, e, na Alemanha, através de Brecht, a um teatro de alguma forma (apesar de tudo) aristotélico na evolução, mas com a autonomia de cenas brechtiana, seu antiemocionalismo, que levam finalmente ao antipsicologismo e à ênfase na encenação, e mesmo ao teatro de Heiner Müller, metafórico, descritivo, antiutópico - a geração 70 retoma uma forma dramática mais clássica. 

Portanto, se Plínio Marcos sobreviveu é porque mostra uma realidade selvagem, tem personagens incríveis, conflitos intensos e (apesar de limitações como a repetição de falas a que a unidade de tempo leva) só precisa de uma direção boa o bastante. Pois é. 

A direção é de Tanah Corrêa. O cenário é de uma pobreza assustadora: estantes de compensado das Casas Bahia, paredes de madeira rosinha-claro mal pintadas, uma poltrona vermelha, e tudo isso sem um pingo de ironia, distanciamento, ou seja o que for. Não passa a ameaça que poderia passar, nem a miséria, mas o caricato, sendo um quadro na parede a reprodução mais fiel de um clichê de "arte". Assim, o figurino não transforma esteticamente a pobreza, mas repete a novela, para horror de quem pode ver. Assim, a atriz principal imediatamente causa surpresa por ser uma senhora gordinha, sendo que a personagem é prostituta. Logo entendo a metáfora: ela é uma sósia da presidenta, e chama-se Dilma. Uma pegadinha, ha. Mas sua atuação é exagerada, inacreditável. Com seu segundo figurino ridículo (verde oncinha brilhoso), num cenário cafona, vira um todo Zorra Total. Só supera sua companheira de cena, a bêbada mais caricata que São Paulo já viu. Então entra uma atriz magérrima, boa, mas quase sem voz. Depois, quando Dilma é torturada, a platéia cai na risada quando dizem: "Bate na Dilma, a culpa é da Dilma" ou equivalente.  

Com a plateia às gargalhadas, parece involuntário uma certa empatia pela Dilma quando ela por fim desmaia. O que se pode salvar aqui é o texto. E a atuação engraçada de Nuno Leal Maia, vejam só. Será que os diretores não precisam sonhar que o realismo real já morreu? Assim como a pessoa que odeia a violência na arte porque "é ruim" ou não quer que os gays casem porque "não é natural", estão no convervadorismo de que o que é literal não é ficcional. Como homenagear Plínio assim? Retrato de um Brasil mal educado, que, como Bolsonaro, acha graça do que não gosta e quer que a presidenta saia por "doença ou coisa pior".  

Afonso Lima

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