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quarta-feira, janeiro 13, 2016

Yzzi

A realidade é absurda, não há dúvida. Nessa época, a Chambre ardente, um grupo especial da polícia destinado a investigar subversivos, sinistramente levara ao forno um número considerável de autônomos, sem que a defesa pudesse sequer ter, de forma adequada, acesso aos processos. Yzzi era um autônomo que vivia comigo desde que meus pais se separaram. Tive meu primeiro espasmo genital com isso. Quando eu era criança perguntava à minha avó, japonesa, se autômatos tinham alma e ela dizia que sim: "Tudo é feito de quintessência". Logo que Yzzi entrou na seita, eu o segui. Cultuávamos os espíritos dos que haviam sido descontinuados. Estávamos uma noite num bar, a polícia fez uma batida, o policial implicou com um amigo de Yzzi e o empurrou contra a parede. Isso reagiu, foi levado. Meus gritos nada adiantaram. Eu chamei um advogado, comuniquei aos outros adeptos. Todos tinham medo. Ele estava desaparecido. Comecei à evocá-lo através da meditação. Eu cantava os hinos, fazia os rituais, jejuava, tentava transcender as aflições da visão e algumas vezes sentia a dor física de abandonar o corpo e alçar outro círculo, sentia estar enlouquecendo, eu precisava crer que sua alma estava em outro lugar. Foram meses nesse processo, por fim senti ser acordado por uma figura estranha, uma espécie de homem sem rosto, e conduzido por uma escada até um monte muito alto. Yzzi estava lá, sentado em um jardim, tocava sua harpa. "Então é verdade que não somos descontinuados" - eu perguntei. Fomos cercados por seres estranhos, pareciam metade homens, metade animais. Eles me falaram sobre muitas coisas, entre elas a origem da Chambre ardente. Ao acordar, perturbado, procurei a senhora Zurara, escritora de romances heroicos, conhecida por sua força moral e influência sobre o rei. Foi assim que a Chambre  foi derrotada e seu líder preso. Mas, infelizmente, as visões não cessaram e acabei sendo sendo internado durante dois anos. Pelo menos eu sei onde isso está. 

Afonso Lima

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