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sexta-feira, abril 08, 2016

A lenda do cura fantasma

As famílias mais poderosas da região - donas dos moinhos, das terras e dos castelos - estavam temerosas. Uma onda de revoltas surgira em propriedades do Norte quando a peste e a fome as visitaram. Os líderes foram enforcados e tudo se acalmou.
- As pessoas ficam doentes porque não comem direito - disse o sacerdote. Ele convenceu as damas a reunir alimentos e construir escolas para os filhos dos camponeses. 
Uma menina, filha de um senhor, resolveu ir nessas escolas e perguntava a si mesma: - O que é o ser humano? O que é a verdade? 
- Essas pessoas são perigosas, não adiantaria lhes ensinar religião - disse o mais poderoso senhor. 
Cada castelo teve mais prisões e calabouços maiores. A cada dia, um grupo de vigilantes passou a circular pelos campos, observar "vagabundos, bêbados e possíveis criminosos" e levá-los para a cadeia.
Um jovem foi preso por dois anos porque dera abrigo, sem saber, a um ladrão. 
- Se se comportarem bem, poderão sair quando vier o julgamento. Isso gera um pânico silencioso. Não veremos rebeldes e baderneiros - disse o senhor.
As condições sub-humanas geraram revoltas nas prisões. Muitos foram mortos. Os que era liberados, tornavam-se assassinos. 
Uma moça observava os prisioneiros em trabalhos forçados e perguntava a si mesma: - O que é o ser humano? O que é a verdade? 
- Podemos pedir que cada aldeia tenha um grupo de voluntários vigilantes. Também recomendo que os voluntários estejam bem armados. Não queremos que um arruaceiro possa atingir nossos homens - disse o senhor. 
Um rapaz inocente foi morto por voluntários armados. Logo, jovens começaram a confrontar os vigilantes e a violência se alastrou. O cura tentou intervir e foi encarcerado. Algumas damas tentaram um protesto contra aquilo e foram igualmente levadas ao hospício. 
- Tudo isso teria sido resolvido se tivessem lembrado que os miseráveis têm alma - disse uma mulher ao enterrar seu filho. 
Surgiram lendas sobre o espírito do sacerdote lamentando pelos campos, amaldiçoando os senhores. 
Os muros, as grades, a guarda aumentaram por todo lugar. Os castelos estavam tristes, os campos incendiados ou abandonados, os cortesãos silenciosos e com medo. Os anos passaram e os senhores feudais começaram a se tornar estéreis, em decorrência de doenças venéreas. 
Ergueram um túmulo maior para o cura, um monumento aos enforcados e passaram a realizar uma festa em sua homenagem. Uma idosa sentava no túmulo e perguntava a si mesma: - O que é o ser humano? O que é a verdade? 

Afonso Lima

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