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sábado, abril 09, 2016

A visita

Os funcionários estavam orgulhosos, mesmo sob aquele sol.
- Escolhemos esse metal depois de muitos testes. Ele podem se agarrar a ele, morder, bater, nada o danifica. A ração também é exata, os tecidos continuam vivos, no nível mínimo.
Os homens dentro das gaiolas pareciam resignados. Um olhar feroz apenas saía de um deles com os cabelos grisalhos.
- Vocês nunca pensaram em outra solução?
- Como assim?
Nada do que eu falava parecia razoável.
- Em duas horas eles estarão mortos. Nossos cálculos nunca falham. Vamos tomar um chá.
Sentamos numa casa de chá próxima.
- Agora os cortes atingiram a manutenção. Há um tempo atrás, desenvolvemos um método de limpar a pele sem nenhuma água, com um líquido especial. O fedor tornava a vida no ambiente impossível. Infelizmente, tivemos de retornar à água fria. Essas coisinhas que nos entristecem. O pó contra os insetos também, eles dormem mal quando perdem sangue.
Ao voltarmos, os guardas já retiravam os homens das gaiolas. Os levaram a um anexo, no qual algumas vísceras eram tiradas, o intestino coberto de serragem, as unhas eram cortadas e o cabelo raspado.
- Com o tempo, aprendemos a resolver tudo otimizando cada detalhe.
A tarde ia caindo. As covas eram de cimento, ficavam próximas a um lago. Perguntei se aquilo não contaminava a água.
- Sim, mas ninguém imagina beber disso aí.
Perguntei por que motivo vísceras eram tiradas.
- É nojento o corpo expelir seus líquidos.
Eles eram envoltos em tecido cinzento, as mãos sobre o peito, sobre eles espirravam uma solução da qual não pude saber a função. O corpo era coberto de serragem e um pó cinzento e uma tampa de metal se encaixava no retângulo de cimento. A terra os cobria. Uma placa de metal identificava o dia e o número da execução.
Depois fomos beber, mas eu não conseguia sorrir.

Afonso Lima

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