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quinta-feira, abril 28, 2016

Macbeth na fumaça

A primeira vez que vi o filme de Justin Kurzel achei tudo razoável. Só me pareceu que ficávamos angustiados quando um longo texto era dado num contexto ultra realista. Recentemente, reli a peça e decidi rever o filme.
Por um lado, trata-se de um teatro da palavra, não realista, em que a poesia demora em mostrar imagens e intenções, como antes as igrejas apresentavam histórias. A palavra deixa o expectador entrar.
Por outro, o que prevaleu para nós é a ideia de um cinema fotográfico - portanto, que mostra o interior e uma consciência individual capaz de expressar-se.
O que ocorre quando queremos colocar sub-texto demais ou cenários extravagantes, é que uma magia anula a outra.

Ao lermos as crônicas nas quais Macbeth se baseia, fica clara a primazia do ato, a crueldade aceita.
A crônica se passa em um mundo feudal no qual vale a lei do mais forte; o poder na era elisabetana já demanda maior estabilidade, concerto, argumentação. Se tentarmos compreender a psicologia desses seres até que eles se tornem "bons", o efeito disso será um melodrama.
É um pouco o que acontece, com efeito cômico, quando parece pouco a fala da Lady inspirando o assassinato e o diretor resolve justapor a isso uma relação sexual do casal.
Simplesmente não entendemos que o rei apareça numa catedral luminosa de altura impressionante. Um vitral colorido faz bem aos olhos, mas não combina com as bruxas e o pântano. Um palácio suntuoso nos leva a pensar num estágio complexo da vida social, em estabilidade talvez oriunda da prosperidade de uma cidade.

Outra escolha de cenário extravagante: o assassinato se passa num acampamento. Além de tornar bastante inverosímel tanta fúria em tendas próximas sem ninguém perceber, várias vezes no texto se fala sobre a questão de "ser em nossa casa", ou seja, as regras de hospitalidade são importantes.
Uma cena onde fica evidente essa fetichização do visual: na cena do banquete, logo após a morte de Banquo, os assassinos entram espalhafatosamente (quando na verdade o assassino aparece à porta) e sentam na mesa, falando longamente com o rei. Isso seria uma confissão de culpa e atrapalha a sequência da cena, que justamente vem de uma situação aparentemente normal para um escândalo público. Também a forma como Lady Macbeth fala com o marido parece mais um bate-boca do que a tentativa de esfriar a situação. Ela simplesmente grita de modo histérico. O sorriso coringa do rei deixa claro desde cedo que ele pirou por sua culpa.

Uma mudança interessante é que a esposa parece tentar evitar a loucura do marido.
Mas, logo depois ela parece chocada com a morte da esposa de Macduff, que aliás é assada na fogueira como num show, algo improvável. Mais uma tentativa de "explicar" o que no texto parece o desaparecimento rápido da personagem mais instigante, que marca por sua força. A crônica central, afinal, narra as aventuras de um rei e a personagem da esposa vem de outra história, que acaba quando o rei é morto em sua casa. Ela até aparece morta com serenidade sobre a cama, depois de um suicídio. Fotografa bem o marido falando de som e fúria com a amada nos braços. Isso porque nenhum homem contemporâneo poderia ser tão frio, nem o cinema pouco realista.
Depois disso temos guerreiros chorando como adolescentes de Nova Iorque que perderam o cachorro e Lady Macbeth indo até a capela-dos-bruxedos para dizer sozinha o que devia dizer sonâmbula para o marido. Isso porque o cenário é muito mais interessante, e um close justifica uma estrelas no elenco. Em tudo a voz e a ação brigam, para deixar mais claro e colocar mais significado. É como se não se quisesse errar no mundo do Homem de Ferro.

O efeito final é de perdermos muitas das palavras, porque temos de acompanhar a cena. E perdemos a cena, porque com tanta emoção, tudo parece mais lento e artificialmente "intenso".
O ato V tem somente oito cenas porque sabiamente Shakespeare evita enrolar sobre batalhas e vingança - no filme são ainda 25 minutos para que vejamos todas as possibilidades da fumaça e do vermelho. O conjunto é uma boa abordagem da batalha, certamente com a visualidade que o tema nos instiga, mas é impossível não pensar que há excesso, que a Macduff com a cabeça de Macbeth diria mais que o seu corpo ajoelhado com exércitos passando.

O filme é belo e não compromete o tema. Apenas sentimos que o diretor quis a todo momento falar mais alto que o texto, até mesmo explicando-o com a imagem. Um outro cinema faria aparecer o que se esconde. Deixaria espaço para construir junto, evitando a supersignificação contemporânea. O que se devia procurar é justamente como se afeta a estrutura viciada dos comportamentos com contradições, como o texto pode implodir-se, como mostrar é esconder e como a desumanização pode revelar novos panoramas.

Afonso Lima



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