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quarta-feira, abril 13, 2016

O mulato

- Sai daqui seu negro! Volta pra senzala.
Até hoje ouvia os gritos dos colegas da Politécnica. O pai pedira proteção do visconde.
Aguardava no jornal.
O dono discutia com o jornalista. Liberdade, cada um na sua especialidade. Fortes e fracos deveriam competir livremente? Aqui, ainda não somos nada. Nossos consumidores futuros são os pretos libertos. Temos que nos proteger, dizia o outro.
Ele percebia que era a voz do dono que dominava, apesar de toda a propaganda sobre modernização, imparcialidade e "profissionalismo".
Percebeu que jamais publicariam nada seu.
Saiu na rua.
- Mas um bêbado pode ser escritor - dizia a voz em sua mente.
- Um Dostoiévski com nariz amassado - disse um jornalista no bar sem perceber que ele estava ali. Eram os personagens de seu livro.
Essa república é mais autoritária que o Império, caminhava lentamente.
Um mulato que acredita no novo regime.
Observa uma árvore antiga. O sol vai caindo.
Os cafés e livrarias do Velho Mundo na Rua do Ouvidor. O inferno dos infelizes no subúrbio.
E o que mais temiam era a Ameaça Vermelha.
Na escola, ouvira que os mestiços eram misturas que, como as mulas, eram erros da natureza.
E se fizesse sua própria revista?
Lembra do banho gelado no hospício e de como pensava em Dostoiévski, que sofreu na Sibéria.
Sentou-se num banco.
Lembrou-se de quando conversava com o Noronha, médico arrogante, metido à europeu.
- Quem me internou foi meu irmão que tem fé na fé do hospício, a ciência.
O outro fazia uma careta, mas não retrucava.
O sol se punha.


Afonso Lima



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