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domingo, julho 31, 2016

Os miseráveis

A Literatura deu uma passadinha na Paulista para ver a festa.
- Dizem que os presos não eram terroristas e têm que ter advogado. Bandido não tem direito!
- Tem que prender o Lula amanhã!
- Nós não tamo aqui pro ouvir sonzinho, mas pra ir pra porrada!
- O professor não pode dizer na aula o que os pais não ensinam!
- Um adesivo - diz a moça muito loira vestida com uma bandeira verde-amarela.
- Não obrigad@ - diz a Literatura.
Os atores pornôs podem ser grandes pensadores, mas esse líder em cima do carro assusta.
Ela desce a colina em direção ao povo.
Ouve dois policiais conversando:
- Bastante gente. Que mais eles querem?
- Muita gente vem só passear com a família.
Feira gourmet, água de coco R$ 6,00 (um Burger King na promoção). Homens comem deitados em frente a uma loja fechada. Um palacete de janelas fechadas, uma loja de carros importados, dois rapazes pobres, negros, olham pela vitrine. Malabaristas em frente ao Doblo 7 Lugares. Ciprestes ao lado de altas torres gregas.
Acha pouca gente no Largo da Batata. Era cedo. Pessoas marcadas pela exclusão, movimentos sociais, feministas com seus tambores e bandeiras, senhores de barba grisalha, moças com bebês, senhoras de cabelos brancos e jovens de cabelo azul.
Uma senhora lhe cola um adesivo "Fora Temer".
Os helicópteros voam em círculo sobre a multidão, o povo faz sinal para irem embora, o policial abana. O barulho mistura-se ao carro de som, no qual um ativista fala:
"Eles acabaram com moradia popular, nós lutamos, eles voltaram atrás. Mas não teve nenhum contrato ainda. Se não sair contrato, esse país tem que parar".
Uma senhora vende uísque e suco num carrinho.
"São 12 milhões de famílias em moradias precárias - o senhor ministro ilegítimo diz que quem se revoltar na Olimpíada será visto como terrorista. Não vamos nos calar".
- Por que eles ficam voando sobre a população - pergunta a um policial.
Ele faz cara feia e pega na arma.
- Você não é a Literatura? - pergunta.
- Sim.
- A senhora não tinha que estar na Paulista?
- Eu vim homenagear meu amigo Victor Hugo - ela disse.
Quatro carros da polícia puxam o protesto. Doze motocicletas atrás deles.
Marcha ao lado da faixa roxa. Mulheres de mãos dadas pedem "casa para todos". Um cordão de homens fortes de braços dados. Um homem negro de camisa vermelha se aproxima.
- O senhor é do movimento dos sem teto?
- Vinte anos nessa luta.
- Eu me lembro de 1829 na Grécia e 1830 na França. Dom Pedro caiu em 1831.
O homem olhou para ela e se afastou.
Um carro decide cruzar a marcha, o rapaz sai pela janela, exige seus direitos. Uma moça com um cachorro, que anda pela calçada, o chama de fascista.
Um restaurante está de luzes apagadas. Seu dono fez propaganda para tirar a presidente. Nos bares ao redor, um jovem de camisa polo e short colorido agradece o garçom que serve uma vodca.
A miséria não é boa para a poesia, ela pensa. Napoleão III exilou Victor Hugo.
Querem chegar até a casa do novo presidente. "Golpista trapalhão" grita alguém. Uma fila de policiais acompanha os caminhantes dos dois lados. Vê policiais segurando a arma. Resolve observar. Em outro cruzamento um Citroën buzina pra passar.  Mais dez motocicletas fecham a procissão. E quatro carros com sirenes vermelhas. São quatro quilômetros de manifestantes. Segue.
O céu está ficando cor-de-rosa.

Afonso Lima

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