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sábado, julho 16, 2016

Um clube do suicídio

40 anos. Essa era a idade que os meninos escolheram.
Eu sempre me achei uma pessoa razoavelmente feliz, que provavelmente é o que somos quando não pensamos nisso.
Um dia um colega me convidou para um drink.
Falou de sua vida muito medíocre e de como tinha ouvido falar dessas pessoas. Elas ajudavam os que queriam partir.
Achei aquilo muito bizarro. Mas não pude esquecer o assunto. Se realmente eu chegasse àquela idade e nada tivesse acontecido - um amor, uma propriedade, um livro - eu ia adorar desaparecer sem vestígio e sem dor, como dizia a lenda.
Afinal achei o caminho - a pista. Publiquei no jornal uma poesia deixando sinais e esperando resposta.
Recebi um bilhete anônimo em um envelope lacrado sob a porta. Um endereço, um horário e uma data.
À princípio parecia um simples coro de Igreja. Mas eu aguardei.
Fomos no enterro de um deles. Havia caído da escada. Ninguém da família. Lobo solitário.
Simpáticos, perguntavam sobre meus hábitos, família, trabalho. Eu hesitava, triunfante.
Por fim eles me contaram sobre a reunião da última quinta-feira do mês na mansão de um deles. Devia haver níveis.
Assustador, sem dúvida. Em tom de brincadeira, fui avisado que não havia volta. Eu aprendi a ler nas entre-linhas. Deixei-me ficar mais por passividade e curiosidade do que por outra coisa. Queria sentir medo.
Na cidade, algumas mortes indolores. O que era mais interessante é que eles não tinham sócios que assinaram um contrato, mas selecionavam pessoas que preenchiam seus critérios de infelicidade, uma vida cinzenta. Eu passei a ter pesadelos.
Já não queria mais. Infelizmente, eu chegava próximo da idade fatal e decidi mudar de cidade. 
Finalmente achei uma esposa, tive dois filhos, encontrei um lugar no mundo, uma profissão.
Mas eu seria feliz? Não sei.
Amanhã vou descobrir.


Afonso Lima

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