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quarta-feira, agosto 31, 2016

Um Brasil intoxicado pela demagogia

O golpe parlamentar que está ocorrendo no Brasil pode ser visto de diversos ângulos. 
Foi um golpe midiático (que criminalizou a esquerda e destruiu reputações), um golpe judiciário (pela omissão e por um ataque do juiz a um único partido), um golpe parlamentar (mostrando a força do dinheiro para eleger pessoas pouco representativas da sociedade), ou seja, uma usurpação legalista. 
Mas o que mais tem me chamado a atenção é o uso de pequenas verdades para encobrir grandes golpes. Foi fácil achar nos problemas estruturais, nas mesquinharias possíveis (uma reforma num sítio, quando Serra foi acusado de receber R$ 23 milhões), nos erros de política econômica munição para tornar o PT algo como o Stalin dos Trópicos. Tudo que foi feito e não foi feito entrou numa salada geral e legitimou as posturas políticas mais irresponsáveis, porque se sabe que a mídia silencia.

Um dos senadores acusa a presidenta de "destruir a Petrobrás". Uma análise mais cuidadosa diria que o uso de verbas públicas em superfaturamento faz parte do jogo eleitoral brasileiro. O que está sendo usado para entregar o petróleo ao estrangeiro. 
A jurista que defendeu o impeachment (professora da USP) chama por Deus e diz condenar Dilma por "seus netos"; é o "janainismo".

Pessoas com quem tenho falado dizem que "quem aprontou está pagando caro" (eleição indireta?) e "Lula é ladrão de galinha" (onde está a prova?).
A vendedora de livros: "Não foram as pedalas, mas com certeza tem algum crime que ela cometeu" ou "os vândalos estão quebrando lojas".
Clímax com mulher na fila do banco dizendo: "Essa vagabunda líder de quadrilha".
O racionalismo perverso conseguiu apagar a realidade. 
Tudo isso lembra muito os processos de 1961-1968 durante a implementação do estado de exclusão ditatorial. Inclusive com ministros do STF fazendo propaganda antiPT e promotores vendendo seu peixe de que a esquerda é a corrupção. (Um ministro do STF se sentiu intimidado pelos ataques na internet à sua mulher - o cidadão banal comanda).

Em diversos níveis, oculta-se que a oligarquia desistiu do teatro democrático. Oligarquia, sim:

"As pessoas mais ricas no Brasil têm 65,8% do total dos rendimentos isentos -
Os rendimentos desses 71.440 cidadãos atingiram R$ 297,93 bilhões em 2013 – o que dá uma renda per capita de R$ 4,170 milhões por ano."
http://metalurgicos.org.br/noticias/as-pessoas-mais-ricas-no-brasil-tem-658-do-total-dos-rendimentos-isentos/

Oculta-se que nem Lula e nem Dilma fizeram (ou poderia fazer) um novo país, mas tiveram de jogar um jogo pronto: bancos, agronegócio, empreiteiras etc. dominam o Brasil; o presidencialismo de coalizão criou uma corrupção estrutural no poder dado a quem doa para as campanhas. Os formadores de opinião também são uma classe ou diretamente ligada ao mercado imobiliário e financeiro, ou de uma sub-elite empreendedora que se alimenta de um discurso de gueto. A estrutura contaminada é a base de tudo, conforme analisa Céli Pinto (da UFRGS), explicando o poder de Eduardo Cunha, que iniciou o impeachment e comanda muitos políticos "patrocinados":


"O esgotamento das coalizões. Difícil aceitar que a crise na base do governo seja consequência da personalidade da Presidenta da República. Os partidos da coalizão, principalmente quando há uma grande dose de fisiologismo, só se mantém na coalizão a partir de um simples cálculo de custo e benefício. Na medida em que o partido do governo, apresenta-se cada vez mais desunido e corroído, que o governo não tem, ou não quer exercer, poder para livrar os aliados da base dos escândalos de corrupção, que se manter no governo não melhora em nenhum nível as possibilidades eleitorais de qualquer partido; que uma crise econômica diminui a possibilidade de distribuição de verbas, através de emendas e outros instrumentos; que as oposições aparecem como possibilidade viável de um novo acordo de coalizão, a coalizão se esgota. Não há espaço de manobra para garantir qualquer base de apoio."

Só para lembrar, a composição do Congresso:

- mais de 70% de fazendeiros e empresários (da educação, da saúde, industriais, etc) sendo que maioria da população é composta de trabalhadores e camponeses.
- 9% de Mulheres, sendo que as mulheres são mais da metade da população brasileira.
- 8,5% de Negros, sendo que 51% dos brasileiros se auto-declaram negros.
Menos de 3% de Jovens, sendo que os Jovens (de 16 a 35 anos) representam 40% do eleitorado do Brasil.

http://www.plebiscitoconstituinte.org.br/
Como a racionalidade da nação foi se perdendo? Acho que muitas pessoas, como eu, deviam acreditar que em algum canto existiriam forças progressistas. 
Em 2012 tivemos uma prévia: o caso "mensalão" em que a Justiça usa de uma violência sem limites (condena sem provas) contra um partido (enquanto outros crimes de outros partidos parecem isentos de culpa). 
Conforme o jornalista Raimundo Rodrigues Pereira:

"Por que a tese do mensalão é falsa? Porque o desvio dos 73,8 milhões de reais não existe. A acusação disse e o STF acreditou que uma empresa de publicidade de Valério, a DNA, recebeu esse dinheiro do Banco do Brasil (BB) para realizar trabalhos de promoção da venda de cartões de bandeira Visa do banco, ao longo dos anos 2003 e 2004. E haveria provas cabais de que esses trabalhos não foram realizados."
http://www.brasil247.com/pt/247/brasil/83657/A-vertigem-do-Supremo.htm

Um caso recente, já que até delação agora é prova:

Investigado da Lava Jato diz que foi "chantageado e intimidado" pela PF - Ao juiz Sergio Moro, Ramos disse nesta segunda-feira (29) que ouviu dos membros da Polícia Federal que "se não falasse o que o delegado queria ouvir", a sua prisão seria convertida em definitiva. "Fui coagido, chantageado, intimidado ostensivamente de maneira pouco usual. Acima do que aceitável, entendo eu, pelo código de conduta da carreira do servidor", denunciou.
http://jornalggn.com.br/noticia/investigado-da-lava-jato-diz-que-foi-chantageado-e-intimidado-pela-pf

O que vimos (em um ambiente em que a ditadura e o neoliberalismo dos anos 1990 acabaram com a educação pública) foi que a união de uma mídia absolutista com o novo fervor fundamentalista evangélico (que passou a odiar a esquerda por causa dos direitos dos gays e representa a união de todos os mais baixos preconceitos) alienou profundamente as massas. Nossa população é alvo fácil de justiceiros parecidos com os da era fascista. Mesmo que as cotas, o ProUni, o Fies tenham trazido mobilidade social e a internet criado novos nichos de debate.

Florestan Fernandes (nos anos 1960) falava que as massas precisavam adquirir o controle dos processos de mudança social e ter consciência da importância de sua atuação política. A maior parte da nova classe média que ascendeu nos anos Lula não chegou a adquirir essa consciência profunda dos processos, por exemplo, uma percepção de quem ou onde estão os causadores dos problemas pelos quais vão às ruas, seja porque teve uma educação privada de baixa qualidade, seja porque o sistema consumista atual determina o conforto material como sucesso e o sucesso e o fracasso como resultados de ações individuais. A TV diz à toda hora que a ação violenta da polícia contendo resistências é apenas "contra os vândalos", que houve "aparelhamento do estado" (justamente quando ele diminuiu muito), etc. Chocante é como foi simples fazer as consciências: trabalha-se muito, o estudo ainda é caro, os livros são caros, etc...

Aliado a isso surgiu o racionalismo economicista (obrigado Globo News) que permitiu à classe média anular sua consciência aceitando um discurso que, no fundo, diz que a sociedade deve financiar os juros dos títulos da dívida pública e, pela dívida, deixar de investir na vida do cidadão. Como diria Luis Fernando Veríssimo, ironizando os apelos simplistas, se vende a ideia de que um pai deve deixar morrer o filho para saldar sua dívida. 

Uma confusão de slogans baratos - desde "roubo" até "crise" - conseguiu mudar os rumos de uma nação. Os senadores pareciam falar para um aposentado malufista dos anos 1980. Pessoas como Augusto Nunes (que chamou o mesmo Veríssimo de "cachorrinho de madame que virou pitbull de quadrilheiro"), Reinaldo Azevedo (que chama dos blogs independentes de "blogs sujos") e William Waack, que representa tão bem essa arrogância baseada em pseudo-argumentos, são algumas das vozes que transformaram o debate público em moralismo cruzado. E furado. Porque "crime de responsabilidade fiscal" é só mais politicamente correto que tanques. 

São forças que estavam ocultas, mas que ainda mandam no Brasil: parte do exército, advogados patrimonialistas, jornalistas fanáticos, o trabalhador que assiste Jornal Nacional e acredita, a pequena burguesia que "deu certo", não foi afetada pela melhoria dos indicadores sociais e tem o sonho de não pagar imposto, o grande empresariado que quer pagar um salário de fome, a grande mídia que odeia ter de dividir verbas governamentais. Não seria impossível deixar a crise destruir a Dilma, mas a pressa também tem a ver com a necessidade de reformas reacionárias antes da nova eleição.
A classe média parece muito satisfeita porque as empresas em que trabalha estão satisfeitas. O estado, agora, faz parte do seu portfólio. 
Muito disso pareceu o processo de ascensão do nazismo, ele também "legalizado" pela Justiça. O criminalizar da esquerda, como disse a professora Walquíria Leão Rego da UNICAMP. 
Mas, ainda que haja essa situação catastrófica e vergonhosa, o Brasil mudou. Não foi em vão. 

Afonso Lima. 

https://www.youtube.com/watch?v=3gQtYPt1NdY

https://theintercept.com/2016/08/29/interview-dilma-rousseffs-impeachment-trial-nears-an-end-endangering-brazilian-democracy/

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