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quarta-feira, outubro 26, 2016

O desconhecido

Ele havia publicado alguns contos numa revista popular.
O padre, um leitor, havia chamado o jovem rapaz para ir na casa que os moradores diziam estar dominada por estranhos fenômenos. O clima frio e o céu cinzento não ajudavam.
O rapaz parecia ter vivido toda sua adolescência dentro de uma biblioteca e do laboratório de seu avô, um industrial curioso e erudito.
Logo depois da morte do avô, sua mãe tendo ido parar num manicômio, casou e viveu dois anos com a esposa até que ela decidiu morar com a família. Ele praticamente não saiu de casa durante muitos anos.
Quando chegou na casa, a jovem esposa contou sobre lustres que balançavam sem vento, sobre sombras que passavam pelos corredores e como ela vomitou sangue logo na primeira noite. O padre estava preocupado com as crianças - cada dia mais doentias e chorosas - e pedia que deixassem a casa. Ficou um pouco com eles e saiu antes de anoitecer.
O marido parecia cético.
- Precisávamos de mais espaço e nunca vamos achar uma casa dessas por melhor preço. tem até jardim para as crianças brincarem. Mas minha mulher está perturbada.
A mulher pediu que ele dormisse uma noite na casa.
- Estou a ponto de desistir da compra. Sabíamos do que aconteceu aqui, mas sinto-me oprimida e a ponto de perder a razão.
O marido mostrou uma revista na qual havia um conto seu sobre um monstro de outro planeta.
- Sonhei com um desenho japonês de um polvo sobre uma mulher. Viraram criaturas nunca vistas, seres que se adaptam ao meio.

Jantaram. Na frente da lareira, o marido estendeu o chá.
- Minha mulher parece mais calma só de ver o senhor aqui. É como se o universo tivesse um centro, afinal.
- Não creio.
- Como?
- Acho que o universo é absurdo, perigoso e cruel.
- O senhor não acredita em Deus?
- Eu sou um forasteiro.
- Apesar de ter sangue aristocrático... Ouvi dizer que o senhor tem sangue inglês.
- Sim. Acho que a América começou sua decadência quando deixamos o Trono Inglês. Eu costumo pesquisar a genealogia. Sou um conservador. Eu tenho tido muitos problemas.
- Problemas?
- Desde que vim para Nova Iorque. Tanta promiscuidade e ignorância.
- Entendo. São muitos imigrantes - ele ofereceu um conhaque.
- O barulho. Blasfêmias. Sujeira, cheiros terríveis. A cidade contaminada. Superstição.
- São invasores. Sombras. Ratos - disse o homem olhando o fogo.
- A lei e a ordem perturbadas. A tendência pior da humanidade. A sub-raça russa. A sub-raça asiática. São mutações. Nenhuma sociedade poderá ser estável sem homogeneidade.
Ouve-se um grito da cozinha.

Afonso Lima




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