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quinta-feira, outubro 27, 2016

Uma zona morta

A Associação em Defesa da Cidade foi informada por uma enfermeira anônima. 
Milhares de pessoas em diversos hospitais do estado. "Nós suspeitamos que é algo na alimentação. Todas têm níveis altos de elementos pesados".
"O que pode ter causado isso?"
Desligou. 
Beatriz, a advogada diretora da ADC, pensou em primeiro lugar na sua filha. A menina sempre dizia não gostar do gosto da água da torneira. 
Ela foi procurar um amigo jornalista. "Existe alguma coisa na água, mas não podemos divulgar. Envolve o governo". 
"Foi um erro?"
"Não exatamente. A regulação é feita por um agência que pertence ao maior acionista: o governo. 
Ninguém regula essa porra." 
"Você quer dizer que..."
"O excesso de terceirizações. R$ 4,2 bilhões em dividendos depois da privatização. Nada investido na qualidade". 
"Você está me dizendo que temos um escândalo de saúde pública? E a imprensa esconde". 
"A água é um produto. Tem de dar lucro".
Beatriz achou que estava sendo seguida. 
Foi procurar um engenheiro, professor universitário, especialista no tema.
"É um monopólio certo? O estado pagou para melhorar o desperdício. Não melhorou. Onde foi esse dinheiro? "
Ele a levou até um laboratório. Mostrou uma amostra. 
"Tão tóxico que não posso dar para um rato". 
"Então a água é tóxica e milhares já morreram?"
"Me pergunte quem são os afetados. Todos são de zonas periféricas. O presidente da agência disse, numa reunião em presença de jornalistas, que seria uma boa maneira de acabar com consumidores que consomem pouco - claro que isso nunca vazou. Os técnicos sabiam há mais de dez anos que se o nível de água chegasse nessa zona morta o envenenamento era muito possível". 
"O senhor está falando que isso nunca vai vir a público?"
"Para essa lógica, esse público é um gasto. São os perdedores. Os acionistas querem dividendos. Quem tem gasto superior a 500 mil metros cúbicos paga tarifa reduzida e tem abastecimento priorizado". 

Beatriz se sentia tonta ao sair da universidade. Entrou no carro e recebeu uma mensagem no celular: "Sua filha está conosco. Saia da cidade".

Afonso Lima


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