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quinta-feira, outubro 13, 2016

O passeio à Hathersage

Você me pergunta por que preferi publicar meu livro sob um pseudônimo masculino. Não seria difícil perceber que nós, mulheres, somos, em geral, vistas como incapazes de articular um discurso útil, sendo nossos corpos a desculpa para julgamentos pessoais quando esses discursos chegam à público. 
Nossas vidas comprovam isso. As histórias das quais parti, tecidas pelas forças da tradição e do destino, também. 
Uma delas é a história - eu presenciei esses fatos quando mocinha - de uma uma jovem criada casada com um belo taberneio  Eles tiveram um filho, mas logo depois ela descobriu que ele, na verdade, já era casado. Isso podia arruinar a vida de uma mulher. Sua justificativa era de que a verdadeira esposa era louca e ele não suportaria viver sozinho. Ela mesma ficou muito perturbada, tendo sido levada pelos parentes para a cidade onde eu nasci. 
Outra história eu ouvi quando fui visitar minha amiga Ellen, em 1845, no casamento de seu irmão. Ele havia me pedido em noivado anos antes e eu não aceitara, como você sabe. Na região que fomos conhecer, uma sombria mansão guardava um trágico acidente. Uma mulher dada como mentalmente desequilibrada vivia confinada em um dos quartos da casa. Desgraçadamente, foi vítima de um incêndio. 
Eu e minhas irmãs usamos pseudônimos masculinos porque o que importa é a obra. 
Eu me pergunto, foi tudo a vontade do destino ou poderia ter sido diferente? Em espírito não somos iguais? 
Escrevi meu livro num quarto escuro, enquanto cuidava de meu pai, convalescente. 
Tive uma febre misteriosa logo antes de concluí-lo. 
Minha irmã brincou comigo que era o meu espírito cristão censurando-me por revelar a verdade.

Afonso Lima



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