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segunda-feira, outubro 31, 2016

Viagem à Abyssínia

Ele foi levado à presença da rainha para receber sua bênção. Seu pai, livreiro de Campo dos Mortos, acreditava que o toque da mulher poderia curá-lo da tuberculose.
- Esse menino tem dons especiais, minha Senhora. Dizem que ele consegue saber o que vai nas mentes.
Ela riu. Pediu que aproximassem a criança de seu ouvido. A corte ria e sussurrava palavras como "deformado", "feio" e "grotesco".
A rainha levantou-se.
- Torne-se um verdadeiro inglês - ela lhe disse, colocou uma moeda em sua mão e saiu.
O pai lhe deixava folhear os livros. Em muitos deles, apareciam palavras inglesas entre linhas latinas. "É quando não se sabe a palavra", disse o pai.
Ele adorava um livro sobre a África, com desenhos de caravanas no deserto e bruxas maometanas.
Ele passou a cobrir-se com panos coloridos e afiar ramos de árvores como espadas.
Mas tiveram de se mudar porque a notícia dos dons do menino se espalhava. Muitos podiam temer ser um dom dos demônios, até mesmo ser ele filho de um deles. Chegaram anônimos a Londres, onde o pai morreu subitamente. A mãe tentou sustentá-los por dois anos, até que também adoeceu. Nesse tempo um nobre lhe concedeu uma bolsa para a Universidade, mas o rapaz desistiu quando viu que riam dele.
O padre o aconselhou enquanto trabalhava num jornal para ajudar a mãe. Ficou sabendo da sua fama enquanto menino.
- Está bem um menino ler mentes. Agora, prepare-se para estar na mente dos outros homens, o que só um livro pode fazer.
O padre defendia as virtudes das igrejas anteriores a 1066, de origem saxã, "pedra quadrada e escura ao lado do bosque".
- Precisamos nos defender contra as palavras francesas - ele dizia - No teatro, por exemplo, eles pensam seguir Aristóteles, querem que a ação ocorra toda num mesmo dia e num mesmo local, mas a poesia é abstração, universalidade.
Apesar do anonimato, homens célebres vêm a ele para lhe pedir conselho. Um deles, um jesuíta português, deixa consigo seu livro de viagens. Traduz o livro e imagina uma fábula que se chamaria "Viagem à Abyssínia".
Começou assim: "O fantasma de uma rosa fica em nossa mente como imagem, assim como uma pirâmide fica enterrada no deserto como monumento à vaidade de um Império". Assim que sua mãe faleceu, ele escreveu - em uma semana - a pequena novela para pagar o enterro.

Afonso Lima


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