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quinta-feira, fevereiro 02, 2017

Pais e filhos

"Hoje, 98% dos municípios brasileiros dizem possuir algum dependente da droga... Segundo o estudo, 80% dos usuários de crack no País são homens, não brancos (negros ou pardos), sem ensino médio e sem emprego ou renda fixa. (01/03/2015 - Carta Capital)
"Chega a 465% de aumento no número de apreensões por tráfico em dez anos"  (Zero Hora)
A capital gaúcha está em segundo lugar entre as cidades com mais dependentes químicos, me diz alguém.
Observo o número de homens pobres que vagam pela cidade, miseráveis, ao lado das avenidas, nos viadutos, nos gramados. 
Um motorista do Uber fala agitadamente, não sabe se deve abandonar o filho, a nova mulher insiste. Ela diz que o sofrimento nunca vai parar.  
Um taxista diz que tem de sustentar o filho, a mulher e seu filho, que ele tem 20 anos e já se internou três vezes, o aluguel tem de ser menos que um salário mínimo, mas isso só tem nas vilas, um amigo liga, chama pra uma festa, bebe e daí já era, ele diz, na última casa vendeu até o fogão à lenha do dono. Sei que meu filho é doente, mas fico louco quando ele vende um tênis novo de marca dado pela mãe e seis pessoas comem a cesta básica que nós damos a ele, diz. Um dia eu peguei uns caras, fomos até uma vila, eles tinham um pacote nas mãos. Depois de algumas vezes, percebei que o pacote era dinheiro que juntam dos dependentes na rua, alguém vende por ali, depois levam a uma loja qualquer. Um deles disse, se o fulano estivesse aqui eu apagava, era um que está roubando a boca deles. O tio tá trincado, diziam, porque estava ouvindo Marley. Se ele soubesse o quanto já lutei contra essa merda. 
Contam-me o caso de um casal de namorados que para de carro num sinal. O namorado dá algumas moedas a um morador de rua. A moça começa a chorar. É seu pai. 

Afonso Lima



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