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domingo, fevereiro 11, 2018

Uma fotografia

"Eu não me lembro dessa foto", ele disse.
Ele trabalhava na universidade, sua função era ler os artigos dos pós-doutores e criar resumos que iriam para o público geral, alimentando editoras e jornais.
Algumas vezes pensava se não se tratava de uma estratégia política.
Mas, um dia, depois do almoço de domingo, quando sentou no sofá com sua mulher e começaram a ver fotos antigas, percebeu.
Ele não lembrava de ter tirado a foto, tinham se conhecido em outro lugar, tinha outra versão. Ele esquecera o real desse dia ou a lembrança desse dia era uma sombra?
Ele ficou obsessivo com isso e, no meio da noite, decidiu subir as escadas até o sótão e começou a vasculhar os arquivos, jogando no chão o que havia nas estantes, tirando todos os documentos de seus lugares, todos os antigos vestígios. Parecia que tudo ao seu redor havia sido montado para ele, fabricado como um cenário. Eram atores.
Por fim, exausto, enquanto a manhã trazia um gélido azul para o cômodo, ele viu numa parede, riscado com um canivete: "Dia Liberdade".
Ele dirigiu durante seis horas para a zona das montanhas, para encontrar seu chefe aposentado.
A luz criava efeitos maravilhosos no verde e os cavalos corriam com o vento.
- Eu pensei muitas vezes em te contar - disse o homem, depois que fez um chá e sentaram. A coisa funciona assim...
Pelo que ele contou, o outro criou um enredo; entendeu que no "Dia da Liberdade", aquele dia em que, uma vez por ano, o cidadão é levado a dormir numa sede de uma empresa contratada pelo governo para propiciar um relaxamento completo - descobrira-se, foi dito, que isso melhorava o desempenho do trabalho em 41% no período a seguir - nesse dia, as pessoas tinham seu cérebro vasculhado em busca de ideias "potencialmente instáveis", ideias que pudessem "ameaçar a segurança nacional". Nesse sentido havia sido aprovada uma lei para modificar levemente algumas memórias a fim de apagar os vestígios de revolta e indignação. Começou com um sentimento muito forte, uma humilhação muito profunda, um momento de histeria, tudo era suavemente envolto em névoa com choques elétricos. O perigo era o apagamento de algumas memórias importantes. Outras vezes o cérebro "refabricava" o todo, tentando criar sentido. Mas parece que haviam testado também a instalação de identidades paralelas. Mesmo desmentido pelos fatos, a crença artificial prevalecia. O custo de mudar todo o campo social, da mentira em conjunto no trabalho e na família, entretanto, levou ao abandono do projeto.
- Acho até que já falamos nisso. Você foi testado. A pessoa que você acha que é não fecha mais com a pessoa que os outros pensam que você é - disse o homem mais velho, fixando nele placidamente seus olhos azuis.
- Quem sou eu então? - ele disse chegando até a janela.
Nesse momento, segurando na cortina, tombou no carpete.

Afonso Junior Ferreira de Lima

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