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sexta-feira, maio 04, 2018

No campo

"Que o Ser Humano deve Trabalhar e sofrer e aprender e esquecer e voltar/ Ao vale escuro do qual ele veio para começar seus trabalhos de novo".

Lembrei desse verso de Blake.
Uma mulher gritando na calçada, atira coisas num prédio, as pessoas começam a andar pelo meio da rua.
Dois homens fortes, depois mais um, demeia idade, bem vestidos, gritam com ela:

- É patrimônio público, você será presa, vai andando.

Ando mais uma quadra, dois rapazes deitados na porta do super-mercado.
Um cheiro de queimado. Instintivamente, olho ao redor, uma lixeira queimando?
A igreja parece muito normal, um grupo de pessoas observa alguma coisa.
Uma montanha escura de ferro, nuvens cinzentas.
Continuo meu trajeto, acabo decidindo chegar na praça. Estrondo. Caem escombros num caminhão fazendo barulho. A quadra toda isolada pela polícia.
Muita gente jogada no chão, muita coisa espalhada no chão, barraca, colchão, igreja Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos, desordem, a casa na rua.

Um homem de cabelo vermelho fala que conhecia uma das vítimas. Mas é contra Bolsa Família. Ele trabalhou e conquistou.
- Ela queria fazer o cabelo da cor do meu. Ela trabalhava. Uma pena os dois gêmeos.

Uma moça fala que "esse pessoal ganha mil e nossos juízes ganham 45 mil".
- Têm pessoas que estão cadastradas em programas habitacionais para mais de 10 anos, o homem diz.
Pelo que parece, as pessoas estavam abandonadas, sem proteção. E tantos imóveis vazios.
Penso que a imagem remete a um campo de refugiados. São os esquecidos da terra, são as pessoas que não podem mais ser cidadãos, que fogem da guerra contra as drogas ou do fogo que alguém criou.

Afonso Jr. Lima





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