Dramaturgia: Afonso Junior Ferreira de Lima e Sandra Vilchez
Carro.
Prólogo
Notícias
do dia, coladas nas janelas. Do lado de dentro e do lado de fora.
- Deputada que falar contra o machismo vai ser morta! Anuncia partido
do presidente.
- Último povo indígena exterminado com sucesso na floresta
amazônica.
-
Campo de trabalho forçado para professores foi inaugurado na última
sexta-feira.
-
Conselho de Direitos Humanos distribui uniformes azuis nas escolas
prometendo que os
meninos
nunca virarão meninas.
-
Policiais recebem “licença para matar” todas as 24 cores de pele
do Brasil, menos uma.
Cena
1
Mulher
2, de moleton e tênis, entra no carro. Olha as notícias coladas nas
janelas.
Batidas
na janela. Mulher 2 abre a porta. Entra Mulher 1, de salto alto,
chapéu, frasqueira.
Mulher 1- Pára
o carro!
Mulher 2- A
gente nem saiu.
Mulher 1- Eu
sei. Mas pára. Não to mais agüentando tudo isso.
Mulher 2- Isso o
quê?
Mulher 1- Você.
Sei lá. O trânsito.
Mulher 2- A
gente não saiu.
Mulher 1- Por
isso mesmo. É muito sufocante aqui dentro.
Mulher 2- Eu
tenho pastilhas. As que refrescam.
Mulher 1- Eu não
consigo respirar.
Mulher 2- Quando
eu saio com o MEU carro, aquele incrível possante, eu me sinto muito
bem.
Mulher 1- Eu não
consigo respirar.
Mulher 2- Eu
ligo o ar no talo. E o som. Liga o rádio no último volume.
Mulher 1
abaixa o som.
Mulher 2- Por
que você abaixou o volume na melhor parte? Ela ia dizer que ama e
que vai voltar.
Mulher 1- Eu não
consigo respirar nesse trânsito com música.
Mulher 2- Nós
estamos paradas.
Mulher 1- Mas há
uma expectativa. Duas pessoas sentadas num carro. O arranque.
Tempo
Mulher 2- (Tira
a chave da frasqueira) Então lá vai!
Mulher 1-
Espera! Pra onde a gente vai?
Mulher 2- Dentro
da frasqueira tem um envelope.
Mulher 1- Dentro
do envelope há um endereço.
Mulher 2- Temos
um alvo.
Mulher 1- E um
GPS.
Mulher 1 abre o
envelope.
Mulher 1- Por
isso que eu não gosto de sair com você. Não tem nada escrito
dentro do envelope.
Mulher 2- É
feriado! Abre a frasqueira. Vasculha. Pega óculos escuros.
Pronto. No feriado as pessoas se divertem. Vamos nos divertir!
Liga o som.
Mulher 1- (Desliga)
De que pessoas você está falando? Eu nunca me divirto em
feriados. Fico entediada. Não tenho dinheiro. Eu quero sair daqui.
Mulher 2- Pois
é. Todos querem sair deste lugar. Ainda mais agora.
Mulher 1- Agora
o quê?
Mulher 2 –
Nada. (Tira o moleton. Fica só de camiseta).
Mulher 1- Dá a
partida! Você tem a chave.
Mulher 2- Eu?
Mulher 1- É.
Você tem a chave o volante a embreagem o freio a buzina.
Mulher 2- Mas o
carro é seu!
Mulher 1- Por
favor! Eu não consigo.
As duas se olham.
Mulher 2 não se mexe. Mulher 1 vai pra cima de Mulher 2. Embate.
Elas trocam de lugar. As duas se olham.
Mulher 2- Se eu
me sento aqui preciso do seu chapéu.
Mulher 1- Eu
quero seus óculos de sol.
Cena 2
Mulher 1 com óculos
de sol. Mulher 2 de chapéu. Mulher 2 tira da frasqueira folhas de
papel com paisagens maravilhosas. Praia. Montanha. Deserto. Cola as
paisagens nas janelas do carro.
Mulher 1- O que
é que isso vai mudar?
Mulher 2-
(Colando) A gente precisa se livrar do peso das notícias
iniciais. Na vida real sempre existem janelas. E paisagens.
Mulher 1- Na
vida real tem sempre uma janela aberta pra se jogar um pedaço de pão
ou um abajur. Um cachorrinho ou carrinho de bebê.
Mulher 2- Ahn?
Silencio.
Mulher 2- Há um
lugar! Aquele que todo mundo quer ir. Onde se contam carneiros
pulando acima de um
arco-íris. Arranca!
Mulher 1- (Vendo
o celular que tirou da frasqueira) Não posso. Acabei de ler mais
uma. A bala atravessou a menina no trânsito. Ainda bem que não
saímos daqui. Me parece mais seguro.
Mulher 2- Sim.
Do lado de dentro.
Mulher 1- Ou
do lado de fora? Ela estava do lado de dentro e...
Mulher 2- Me dá
um medo de sair.
Mulher 1- Eles
conseguiram. Me dá um medo de ficar.
Mulher 2-
Dividiram a gente.
Mulher 1- Escolhem
quem fica vivo e quem fica morto.
Mulher 2- Eu me
recuso. Arranca!
Mulher 1- (Chave
nas mãos) Você não ouve a imobilidade do ar. As folhas não
dançam de um lado para o outro.
Mulher
2- Então?
Mulher 1- Eu
vou! Tem um cigarro? Me dá mais coragem. Cinto de segurança, ok.
Janelas fechadas, ok. Eu posso fumar?
Mulher 2- Se
eles não se importarem?
As duas olham para o
público no banco de trás.
Mulher 1- Ela, a
menina de oito anos, do lado de dentro da Kombi, voltava pra casa com
a sua mãe.
Mulher 2- Cheiro
de fumaça no banco. Será que já somos o alvo?
Epílogo
Mulher 1 liga o
carro. Tempo. O carro não sai.
Fim.