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sábado, julho 08, 2006

Trechos de um Dossiê Russia, de Mikhail Gorbachev...


Outubro como um marco na história contemporânea

Mas o que havia de vicioso no modelo bolchevique de socialismo? Em primeiro lugar, o fato de ele ser precisamente um modelo-esquema, com princípios e normas ideológicas rígidas que deviam ser impostas de cima para baixo. Em segundo, que o princípio capital e sintetizante desse esquema era a ditadura do proletariado.

Antes da revolução, Lênin escreveu que o proletariado não conseguiria conquistar o poder de outra forma que não fosse a democracia, e não conseguiria construir uma nova sociedade se não o fizesse democraticamente. Na prática, porém, desde o início, a ditadura do proletariado foi um rompimento completo com a democracia.

O que ocorreu não foi uma ditadura do proletariado, de uma camada massiva da sociedade, mas uma ditadura da cúpula dirigente e suas nomenklaturas hierárquicas. (...)


Tal esperança e tal crença eram fortalecidas por determinadas realidades. Seria futilidade pintar todos os guias e chefes soviéticos de demônios, de malfeitores e patifes acabados, de infames inescrupulosos e cúpidos, nem um pouco preocupados com os interesses e as necessidades da gente comum. Sim, houve pessoas desse tipo entre eles, e não poucas.

Mas, o que é mais provável, a maioria foi ao poder para servir honesta e até abnegadamente às massas trabalhadoras. O fato de que o sistema desvalorizava o seu afã e anulava os seus esforços é outra questão. Mas, é preciso que seja dito, se não na lógica objetiva do próprio sistema, então na sua concepção estavam inseridos os interesses do povo trabalhador, dos operários e dos camponeses.

Daí, a liquidação do analfabetismo, a acessibilidade do cinema e do teatro, as grandes tiragens dos livros, a construção de escolas em todas as regiões do país, o direito real à instrução e ao aprendizado de um ofício, o esporte de massa, a organização do descanso, a assistência médica e a previdência social – boas ou más, mas garantidas –, a moradia e os serviços comunitários por preços simbólicos.

Foi eliminado o desemprego, cuidou-se dos menores abandonados, e estabeleceu-se uma ordem social, que deu conta satisfatoriamente da criminalidade. Isso gerou confiança no dia de amanhã etc. – enfim, tudo o que agora constitui a fonte dos ânimos nostálgicos de milhões de cidadãos russos.

Tais direitos sociais, de que gozavam os cidadãos soviéticos e, hoje, por causa das reformas de choque dos anos 1992-1996 foram praticamente extintos ou arrochados até o mínimo, constituem parte inalienável dos direitos do homem. E eles devem ser e serão restabelecidos, se a Rússia pretende ser um Estado democrático moderno.
(...)

Eis a demonstração por absurdo: hoje, quando o exemplo social da Rússia se exauriu, em muitos países ocidentais entra em moda a política de arrrocho dos direitos sociais das pessoas, a tendência a resolver as questões da concorrência internacional no quadro da economia globalizada por meio de cortes na esfera social. No fim de contas, tal procedimento também pode se revelar perigoso. Mas, por ora, isso tem sido feito e com muita energia. Tal é, fundamentalmente, o lugar histórico da Revolução de Outubro e da União Soviética no contexto mundial. (...)

Em conseqüência, criou-se o problema global Norte-Sul, que paira como uma ameaça terrível sobre toda a comunidade mundial. A eficácia do mercado gerou uma crise ecológica global, que também representa ameaça à vida na Terra (...)

Estou convencido de que a nova civilização inevitavelmente assimilará alguns traços peculiares ao ideal socialista, pois esse ideal existe há séculos e reflete as recônditas aspirações e os sonhos do homem. (...)

http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0103-40141998000100002&lng=pt&nrm=iso&tlng=pt
Instituto de Estudos Avançados da Universidade de São Paulo

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