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domingo, janeiro 28, 2007

Ótimo Festival Brasileiro no Santander.

"Soy Cuba": um Mamute Siberiano é daqueles filmes em que se sai do cinema com um sorriso. É a história de algo que não funciona, mas você entende o por que e o como... E há o prazer de ver pessoas falando de algo que gostam, fazendo algo que gostam...
Não concordo de modo algum com a crítica feroz de Bernardo Barcellos no site Contracampo, que fala de "algumas histórias sem importância, aliadas a comentários extremamente pessoais" do diretor.

Um dos passos importantes do filme é mostrar um sonho, um ideal, sem ser claramente político: falar de liberdade fora do método empresas-globais e governos corporativistas. Mostrar que, como diz Noam Chomsky, o medo é ter alternativas...

As imagens de Mikheil Kalatozov, o diretor enviado pela URSS a Cuba para filmas sobre sua revolução, mostram-se na sua poética pura, e nós as adoramos. Somente no fim as vemos pelo olhar dos cubanos, um olhar marcado pelo orgulho da ação, da posição política, um olhar, portanto, longe do romantismo inspirado pelo cinema mudo (sempre grandeloqüênte), do catolicismo e da monarquia, cheias de símbolos eternos e simbólicos...

Uma grande esperteza do filme é isso, é um filme sobre percepções humanas. A percepção do criador sobre Cuba, tão diferente do inferno pobre que a mídia grande nos passa; a visão de um diretor do frio sobre um mundo anti-imperial que, querendo mostrar sua importância, a transmitiu num estilo europeu, velhusco, mas hoje, depois do cansaço das modernidades, captável em sua singularidade original; a visão dos criadores que se viram imersos em um fracasso e agora são reconhecidos mundialmente. Bendito o filme sobre percepções...


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Outro filme brilhante é "Cinema, Aspirinas@ e Urubus". Para ser sincero o filme foi tão comentado na época que eu perdi o tesão. Sabe, aquele tipo de filme cult que você tem de gostar para estar "inn". Nem o programa me seduziu, "vão pelo sertão vendendo remédio milagroso!" Que novidade!

Mas fiquei surpreso com a simplicidade do filme.
Claro, há uma ou duas cenas a mais, uns lances que mostram que é cinema... (Por exemplo, quando o emigrante conta sua aventura na cidade, fica meio novelinha...)
Já foi dito que os programas de hoje são sobre losers; a Tv americana passou a falar dos conflitos internos (!) em um mundo sem segurança... E nossa TV tão cheia de pessoas resolvidas! Aqui eles estão ótimos.

"Ô diabo de alemão que acha tudo interessante", diz o personagem nordestino a certo ponto.
O que é mais comovente é a atenção que um tem pelo outro, sem sexo, sem interesse... O respeito humano que nasce dali.
Gostaria de comentar principalmente a diferença deste para Árido Movie, também na mostra. Se este mostra todo o drama do sertão nas faces, no solo, nas plantas, o outro é didático e sua história não passa de um meio para um slogan pronto "como usam a água de forma política"!
Ou seja, a norma é sempre válida: arte é reflexão disfarçada!

ajr

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