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segunda-feira, abril 08, 2013


Os Morgans

Entramos no teatro e somos surpreendidos pelo cenário no qual flutuam objetos antigos. Esses objetos que revelam, que fazem emergir verdades.

Quando pensamos em Arthur Miller, pensamos em sua militância democrática e no seu rigor formal que cria coerência fragmentando o drama realista com toques de narratividade, delírio, cortes temporais, etc. Pensamos também na sua arte que faz com que homens vitimizados, como um caixeiro viajante "bagaço-de-laranja", se tornem complexos, contraditórios, assumindo na pele o fascismo da sociedade, defendendo essa "ordem" e essa "liberdade", que são apenas ausência e opressão sem lei.

E, assim, Miller nos ajuda a pensar nossa própria sociedade na qual aprendemos durante vinte anos a não fazer barulho, a defender o chefe, a achar que tudo que existe é o melhor que poderia acontecer. A moda agora é não ser "polêmico" e saber se comportar, ou seja, esquecer. Ninguém quer parecer "baderneiro" e "idealista", um 68 deslocado. Nós ainda não fizemos o luto e o ritual de reconhecimento necessários. Não debatemos os preconceitos que levaram ao sangue.

Essa não é uma peça de protesto como "As Bruxas" ou "A Morte". O que mais impressiona aqui é o quanto ela nos diz sobre a nossa ambiguidade. Como o personagem principal, que tem duas esposas, queremos tudo, ao mesmo tempo, acabamos acreditando em nossa mente que justifica e encobre nossa deriva ética. (Os miseráveis, por exemplo, não são sempre culpados de algo?)

Como cuidar de nosso monstro interno e viver coletivamente sem ser moralista? Viver intensamente (ostentando) é nossa Lei Maior, salve-se-quem puder. Somos esquerdistas, somos humanistas, somos radicais, mas temos de ser os melhores e ter um resultado perfeito, mate quem atrapalhar. Optamos por não sofrer. De certo modo estamos tão assustados que preferimos comprar nosso carro e lutar para pagar uma escola melhor, do que repensar o individualismo. Conseguiram nos convencer que as utopias acabaram e que isso é ótimo, e se essas conclusões são quase banais é porque chegamos à pulverização do aparelho de pensar. Somos os objetos perdidos. Existem consequências.

A grandeza dramatúrgica aqui está em apresentar seres complexos e boa ficção, sem moralismos simplistas. A esposa é durona, patriota e frágil; a outra mulher é independente, sensível e vitimizada. "O cristianismo acabou, o marxismo acabou". Onde conseguir a alegria da verdade e por que?

Como escafandristas arqueólogos temos de buscar os sinais de outra história, de juntar cacos para ver o que a onda neo-conservadora encobriu. Estranhamente, neste momento em que nossos direitos mais fundamentais são atacados com toda a força (seja por aquela parcela da população que não teve educação suficiente e agora defende um fundamentalismo religioso, seja pelos nossos governantes que, por exemplo, vendem sem dó áreas verdes em troca de alguns trocados), tudo parece bem. A ideia adorniana de que a forma já é política pode ter também um lado sombrio.

Mas então, aquilo que foi escondido retorna, o "menino monstro" do condomínio fechado ganha as ruas, também nossos sentimentos caóticos e incontroláveis, nossa ambição, nossa fome. A sociedade desigual deformou nosso caráter. Provamos nossa superioridade de classe pela cultura, temos nojo do "fracassado". Aceitamos. Somos crianças e saímos de noite da cama para dirigir nosso Porsche na neve.

A montagem soube dar vida a esse mundo em pedaços. O elenco, maduro e apostando nas variações emocionais e no entendimento do texto, nos deixa ver essas figuras de todos os lados; a opção por ressaltar momentos de comédia amplia a situação, assim como a direção ágil que opta por reforçar o realismo onírico,  deixando confuso o confuso, e amenizando o déjà-vu dos "momentos felizes" em flash-back da primeira parte, que podem ser um pouco cansativos depois de Lost. (É certo que, no final, são tantos estados emocionais que um intervalo a mais entre as falas seria ótimo). A virada da segunda parte, onde todos são culpados, é um belo enriquecimento no texto. Talvez não seja a melhor peça de Miller, mas é Miller, o que já diz tudo.

Afonso Lima

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