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segunda-feira, março 17, 2014

A fuga

Até o cem ele manteve um ar digno. Mas quando o chicote corta a carne viva, nenhum homem pode ser determinado. Cada assovio do carrasco, arrancavam-lhe um pedaço de carne. Nas duas primeiras ele dissera - Jesus! Agora sua cabeça pendia junto ao poste. Depois, um pior castigo, sal e vinagre na chaga. Cem negros vivos ao mar! Isso não pode - a mulata forra que servia no café. Nunca que será a tal abolição, Clarinha, porque se vai contra o direito de propriedade - o Francisco - Veja esse caso: a própria mãe do homem foi ter com o chefe da polícia, dizendo que comprava ele, que era negro filho de coronel de Angola, que ela apelava pra misericórdia cristã do padre seu dono e. Ela rosna. Olha os do São Bento, quatro engenhos lotados de negros - Mas que que o homem respondeu, que no Haiti os negros já mataram seus senhores, e que não podemos ter mais negros livres que brancos, que um é inimigo natural do outro, podem nos assassinar. Ela bate o copo. O que eu não gosto são as cabeças do fujões. Pai meu, nos paus pela cidade. Eu. Sabe. E esse José, ele mesmo era preso nas correntes, veio de Àfrica magro como esqueleto, se não fosse achar diamante. Agora quer trezentas chicotadas. Antes tinha, os padres diziam, mais de quarenta por dia mutila o escravo. Merece pedradas na rua. Francisco abre o jornal. É propriedade. Ninguém pode ser constrangido a vender seu herdamento. A pobre mãe não sabe que tudo nessa terra é a razão política. Deitado de cabeça pra baixo, para evitar o correr do sangue, as moscas. Arruma as calças, escoltado para a prisão, preparam-lhe o banho de sal e pimenta. 

Afonso Lima

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