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quarta-feira, março 12, 2014

Moreno das Ruas

Moreno das Ruas tinha os olhos claros do pai e a pele escura da mãe. Vivia das bananas e algum toucinho que as escravas davam para ele, dormia no porto com outros meninos. Naquele dia estava na ladeira quando viu os soldados trazerem o tropeiro, arrastado, mãos presas nas costas. Como o vento, a notícia se avizinhava: ele escondera diamantes na espingarda. E logo agora que o Rei em pessoa e toda sua gente nobre iam chegar! O menino foi seguindo os homens, que iam em direção à prisão. O barbeiro, homem das cirurgias mais delicadas, dizia: É por isso que prendem os franceses, meu amigo. Por isso que livro é proibido. Mas ficou quieto quando chegaram damas da sociedade. Falou baixinho pra Moreno: Lembra bem, uma dessas é que de certo ganhava com a vida ruim de tua mãe. Malditos padres! Elas são tão puras e trancadas, que os brancos tem que fazer filho nas putas pretas. O menino correu para alcançar o grupo que, agora já cercado de uma multidão, ia cruzando a praça. Ele roubava sim, também vivia de trambiques, mas rezava pra Virgem do Rosário. Subiu num pé, ficou sentindo a brisa do mar. Pobre do omi, pensou, jogado no buraco até o Dia do Fim. Pra esses, o melhor é quando mandam pra África, disse o vendedor de frutas do lado do ferreiro. Moreno pensou que, quando crescesse, ia ser tropeiro, mas que nunca ia roubar o ouro ou diamante do Rei, Que morrer em buraco já basta a Bahia. E correu de novo pra seu posto, que ainda podia ganhar uma moeda carregando alguma coisa pra Cidade Alta.   

Afonso Lima

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