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sexta-feira, março 14, 2014

Um amor

Faltam 6 horas para a fronteira. Precisamos parar para comer. Dois músicos, que haviam sido presos, conseguiram avisar para que fugisse. Na sua cela, o padre escreve uma carta para um amigo em Roma. "Quem poderia dizer que o mesmo horror do Frei Caneca, que o mesmo horror da Cabanagem, que o horror de Tiradentes poderiam voltar numa armadura de modernidade e com técnicas importadas? Não existe interrogatório sem tortura". O meu namorado teve que sair do Rio. Ele teve que sair da minha vida. "A participação acabou. Os portugueses mandavam prender até quem se vestisse como francês e fecharam a Sociedade Literária do Rio de Janeiro. A UDN, o PSD, os conservadores da Igreja divulgam medo anticomunista e a classe média embarcou". O músico teve de sair do seu apartamento depois do AI-5. O Maracanãzinho tinha vibrado com ele. O Congresso fechado. Entraram no bar. "A CIA entrou com armas, com financiamento ao IBAB e ao IPEs para fazerem propaganda antigovernamental". No bar, música alta. Sempre alguém pode reconhecer, comentar. Começa a tocar música dele. Meu pai se levanta, eu abaixo a cabeça. Já vemos um soldado nos prendendo. Mas não. Era o sucesso. "No Congresso, a direita barrou o plano de Celso Furtado. A inflação disparou, favorecendo a campanha da direita. Central do Brasil, 200 mil pessoas tentando parar o golpe. Mesmo que o movimento por justiça fosse amplo, ninguém ia poder enfrentar as armas". Sucesso. Chegamos à Alegrete. O passaporte dele eu tinha destruído de burra com um perfume na minha bolsa. Ele vai sair do Brasil. "Eu só posso dizer que tortura é ensinada em aula, na Polícia do Exército. Com slides, tudo. Eles trazem presos e mendigos para aulas práticas. Eu também tenho dado aulas. Tranco meus alunos à chave e falo da ditadura." Ele ainda faz música, mas vive trancado no seu apartamento. Têm coisas que não se pode apagar e esquecer. 

Afonso Lima

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