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sexta-feira, maio 16, 2014

"Memórias de um jovem solitário"

O que é o manuscrito nós não sabemos. Uma ficção do jovem suicida? Um diário? Uma crítica literária embrionária? Em alguns momentos ouvimos a voz do pai, por exemplo: "A governanta me dizia que ele, com dez anos, passava as tardes deitado olhando o teto". Em seguida o jovem é descrito em terceira pessoa como um bom aluno, alguém que jogava futebol com o motorista. "Depois parou de me contar. Eu achava que meu trabalho estava mudando o mundo e não era fácil sair de Brasília" - aqui temos novamente a voz do pai. A governanta é apresentada em uma reunião de escola onde o menino é elogiado por suas notas, mas contam-lhe como ele ficava solitário no pátio todo o recreio. 
Logo depois temos uma extensa nota onde se apresentam os livros que o jovem autor lê, com uma nota para cada livro (Hesse - 8,00 - reprovado). Poemas sobre a solidão, descrição detalhada sobre os cabelos de uma aluna, cartas falsas para a mãe em Paris. "Julio queria estudar ciências, mas nunca vai, porque quer morrer cedo. Eu sou tão pequeno, ele dizia. Não tenho um amor." O motorista o levara para assistir uma sinfonia de Mahler aos 11 anos. Temos, então, duas páginas de estudo sobre as sinfonias. "Julio poderia ter sido músico, mas seu pai não deixou". A crítica tem divergido sobre o valor da obra nesses últimos 20 anos, mas parece retratar uma crise na narrativa contemporânea e descreve a vida sofisticada da classe alta, uma bela casa em frente à lagoa, conforto e presentes vindos de todas as partes. Infelizmente, o rapaz morreu com 20 anos. Seus pais deixaram para a governanta o manuscrito, que foi publicado. 
Afonso Lima

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