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terça-feira, junho 28, 2016

São Bento

- Achados em meio às plantas da praça, salvos por um policial que veio entregar na porta da minha casa. Professor, herdeiro das memórias do mundo. 

"Carrinho cheio. Recolhe na frente da casa branca. Tinha uma casa azul ali. Ando dia todo e mais a noite. Até uma ora. Tem um poste amarelo bonito velho cheio de lixo. A mulher do cachorro tem medo de mim. Vai fazer frio. Vou pro metrô porque vem chuva. Enrola na coberta. Três blusas." 
"Meu carrinho não entra no albergue nem o cachorro. O cachorro é meu, não vou deixar na rua. Fez zero grau ontem. Comida e pouso ia bem. Ele gosta de mim. Tem vindo muito velho pra marquise, muito homem sem cabeça. Teve um moleque muito esperto, nóis expulsa." 

"Para esse homem de barba sujo custa mais caro. O rapaz não quer dinheiro de homem da rua. Pura gordura, o torresmo. Alguém dá um bolo." 
"Trabalho dia todo vejo coisa. Tem predinho bonito escondido que dá dó. As praça cheia de gente no chão, amontoado não era tão assim. Dona Toninha morreu. Já tinha trabalhado em casa de família o patrão quis coisa com ela foi pra rua. Eu sempre dava coisa pra ela todo mundo dava roupa era boa. Morreu de frio." 
- Fiquei espantado. De modo geral pensamos que as pessoas não sabem ler ou não teriam relação com os símbolos da linguagem formal. Alguma coisa as fez não visíveis. Quem sabe consigo publicar o manuscrito. 
Afonso Lima

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